Sobre o Método Materialista Dialético

Meu método dialético não só é fundamentalmente diverso do método de Hegel, mas é, em tudo e por tudo, o seu reverso. Para Hegel o processo do pensamento que ele converte inclusive em sujeito com vida própria, sob o nome de ideia, é o demiurgo (criador) do real e este, a simples forma externa em que toma corpo. Para mim, o ideal, ao contrário, não é mais do que o material, traduzido e transposto para a cabeça do homem.

I — O que é materialismo dialético?

Eis um tema que assusta gregos e troianos nas fileiras marxistas: o materialismo dialético.
Stálin, grande mestre do proletariado, sintetizou o conceito da seguinte forma:

Chama-se materialismo dialético, porque o seu modo de abordar os fenômenos da natureza, seu método de estudar esses fenômenos e de concebê-los, é dialético, e sua interpretação dos fenômenos da natureza, seu modo de focalizá-los, sua teoria, é materialista.

É notável que o materialismo dialético aparece, em Marx, como seu método de investigação, complementado, no campo da aplicação desse método, na concepção materialista da história, o materialismo histórico.

Por exemplo, o método materialista dialético levou Marx ao entendimento de uma sociedade dividida em infraestrutura superestrutura (uma visão materialista da história), sendo o motor das mudanças sociais as contradições relativas a estas seções do corpo social, ou seja, sendo elas as determinações essenciais para entender mudanças na sociedade. Portanto, é aplicação desse método na vida social.

Em poucas palavras, tais coisas são indissociáveis. No entanto, aqui será exposto o fundamental e básico do método materialista dialético de investigação — manifestamente, o método científico do proletariado.

II — Dialética e materialismo

Ao abordar qualquer fenômeno com este método, começa-se com a admissão do objeto de estudo como algo material, objetivo, portanto, existente fora da abstração pura do observador.
Tal é o materialismo que dá o pontapé de partida no método.
As ideias, por conseguinte, não são o ponto de partida, mas a atividade material, uma vez que esta condiciona as ideias.

Além disso, admite-se também que qualquer fenômeno obedece algumas leis universais, inerentes à matéria. Tais são: a lei da negação da negação, a lei da luta de contrários e a lei da transformação da qualidade em quantidade.

Tratando da negação da negação, o desenvolvimento de uma mudança qualquer no objeto em questão decorre de condições já dadas internamente, ou seja, não é possível esperar que de uma semente de laranja nasça um cachorro. É preciso esperar, necessariamente, que o que é que haja ali será negado e, então, dará lugar ao novo. Este último novo, por sua vez, será negado também, eventualmente, e outra coisa surgirá.

A negação não é o ato de “dizer não”, porém, o desenvolvimento ulterior de algo baseado no que já estava dado internamente. Engels caracteriza genialmente isto:

Mas, afinal, em que consiste essa espantosa negação da negação, que amargura a vida do Sr. Dühring(…)? Consiste, como veremos, num processo muito simples, que se realiza todos os dias e em todos os lugares, e que qualquer criança pode compreender, desde que o libertemos da envoltura enigmática com que o cobriu a velha filosofia idealista e com que querem continuar cobrindo-o, porque assim lhes convém, os fracassados metafísicos da têmpera do Sr. Dühring. Tomemos, por exemplo, um grão de cevada. Todos os dias, milhões de grãos de cevada são moídos, cozidos, e consumidos, na fabricação de cerveja. Mas, em circunstâncias normais e favoráveis, esse grão, plantado em terra fértil, sob a influencia do calor e da umidade, experimenta uma transformação específica: germina. Ao germinar, o grão, como grão, se extingue, é negado, destruído, e, em seu lugar, brota a planta, que, nascendo dele, é a sua negação. E qual é a marcha normal da vida dessa planta? A planta cresce, floresce, é fecundada e produz, finalmente, novos grãos de cevada, devendo, em seguida ao amadurecimento desses grãos, morrer, ser negada, e, por sua vez, ser destruída. E, como fruto desta negação da negação, temos outra vez o grão de cevada inicial, mas já não sozinho, porém ao lado de dez, vinte, trinta grãos. Como as espécies vegetais se modificam, com extraordinária lentidão, a cevada de hoje é quase igual à de cem anos atrás.

Falando sobre a luta de contrários, é visto que no corpo de qualquer fenômeno tendências opostas, mutuamente excludentes, que tendem à vida ou à morte daquele objeto de estudo. Tal coisa é absoluta, já que tudoo tempo todo, muda.
São pólos que definem, em outras palavras, a força que algo possui para continuar existindo daquela forma, ou não. São mutuamente excludentes, pois, em algum momento crítico, aquele objeto mudará totalmente sua forma — já que tudo, o tempo todo, muda — e, por conseguinte, haverão novas forças opostas definindo sua vida e sua morte, logo, de um modo ou de outro, as tendências opostas excluirão a si mesmas.

Breves exemplos são: ação e reação na física; na luta de animais contra o ambiente na biologia; a luta de classes na sociedade, etc.

Alguns breves exemplos da contradição são encontrados, mais uma vez, nos apontamentos geniais de Engels:

(…) o simples movimento mecânico, a simples mudança de um para outro lugar, contém uma contradição, suponha-se então a série de contradições que estarão contidas nas formas superiores de movimento da matéria, e, em particular, na vida orgânica e na sua evolução. (…) a vida consiste, precisamente, essencialmente, em que um ser é, no mesmo instante, ele mesmo e outro. A vida não é, pois, por si mesma, mais que uma contradição encerrada nas coisas e nos fenômenos, e que se está produzindo e resolvendo incessantemente: ao cessar a contradição, cessa a vida e sobrevêm a morte. (…) no próprio mundo do pensamento, não poderíamos estar livres de contradições, como, por exemplo, a contradição entre a capacidade de conhecimento do homem, ilimitada interiormente e a sua existência real, no seio de um conjunto de homens, cujo conhecimento é limitado e finito exteriormente. Essa contradição, no entanto, se resolve na sucessão infinita, pelo menos para nós, das gerações, num progresso ilimitado.

Caracterizando a transformação da qualidade em quantidade, é — com todo o conhecimento científico disponível hoje — inadmissível pensar outro caminho para a mudança da matéria.
Porque a natureza, com todos seus processos existentes, não mudam simplesmente do dia para a noite. Entretanto, são resultados de um constante e silencioso acúmulo de mudanças (quantitativas) que, no seu auge, mudam radicalmente o corpo daquele fenômeno (salto de qualidade).

Estas leis são justas, já que correspondem aos movimentos reais da matéria. Contudo, os objetos de uma investigação materialista dialética não devem ser tomados, nunca, como isolados. Ao contrário, são interligados numa cadeia infinita de relações contraditórias, a ação recíproca.

Engels mostra a importância de adotar a visão de ações recíprocas nas seguintes palavras:

Para o metafísico, as coisas e suas Imagens no pensamento, os conceitos, são objetos de Investigação Isolados, fixos, rígidos, focalizados um após o outro, de per si, como algo dado e perene. Pensa só em antíteses, sem meio-termo possível; para ele, das duas uma: sim, sim; não, não; o que for além disso, sobra. Para ele, uma coisa existe ou não existe; um objeto não pode ser ao mesmo tempo o que é e outro diferente. O positivo e o negativo se excluem em absoluto. A causa e o efeito revestem também, a seus olhos, a forma de uma rígida antítese. À primeira vista, esse método discursivo parece-nos extremamente razoável, porque é o do chamado senso comum. Mas o próprio senso comum — personagem multo respeitável dentro de casa, entre quatro paredes — vive peripécias verdadeiramente maravilhosas quando se aventura pelos caminhos amplos da investigação; e o método metafísico de pensar, pois muito justificado e até necessário que seja em muitas zonas do pensamento, mais ou menos extensas segundo a natureza do objeto de que se trate, tropeça sempre, cedo ou tarde, com uma barreira, ultrapassada a qual converte-se num método unilateral, limitado, abstrato, e se perde em Insolúveis contradições, pois, absorvido pelos objetos concretos, não consegue perceber sua concatenação; preocupado com sua existência, não atenta em sua origem nem em sua caducidade; obcecado pelas árvores, não consegue ver o bosque.

Mao Tsetung, mais tarde, afirma que a principal das leis aqui citadas é a da luta de contrários, a lei da contradição. De um lado, esta lei condiciona todas as outras; de outro, ela determina o caráter prático da ação marxista em relação ao processo de solucionar esta contradição.

Com este grande aporte, o Presidente Mao clareou o caminho da prática marxista no sentido de sempre identificar a contradição principal que move um fenômeno, bem como dar preferência à análise das contradições internas do objeto, uma vez que somente estas são o motivo da existência real — em primeiro lugar — deste.

Em poucas palavras, o aporte genial de Mao Tsetung universalizou e elevou a lei da contradição à condição de principal para a investigação marxista justa.

Com este entendimento das leis dialéticas e a concepção materialista do mundo, Marx pôde ser diferente de Hegel por inverter seu método: ao invés de conceber a ideia como criador e agente do mundo, o mundo é agente e criador das ideias.
Além disso, Marx também pôde ser diferente de Feuerbach: ao tomar o mundo como fluído, contraditório, interligado e processual, entende que o homem não é um ser isolado, abstrato, porém, o mundo dos homens, em constante transformação — e que, logo, pode mudar praticamente as circunstâncias e os produtos sociais com os quais interage.

III — Aplicação do método

Apesar da mistificação incessante que hoje flutua à beira do materialismo dialético e do materialismo histórico, muitos autores já explicaram categoricamente como é a aplicação justa do método materialista dialético.
Para medidas de didatismo, contudo, expomos breves, sucintas e acertadas palavras de Stálin:

Que é método dialético?

Diz-se que a vida social se encontra em estado de incessante movimento e desenvolvimento. Está certo: não se pode considerar a vida como algo imutável e estático; ela nunca se detém num mesmo nível, acha-se em eterno movimento, em eterno processo de destruição e criação. Por isso sempre existe na vida o novo e o velho, o que cresce e o que morre, o revolucionário e o contra-revolucionário.

O método dialético ensina-nos que temos de considerar a vida precisamente tal como é na realidade. Vimos que a vida se encontra em incessante movimento; portanto, devemos examinar a vida em seu movimento e perguntar: para onde marcha a vida? Vimos que a vida apresenta um quadro de constante destruição e criação; portanto, nosso dever consiste em examinar a vida em sua destruição e criação e perguntar: o que é que se destrói e o que é que se cria na vida?

Ao descobrirmos o movimento de algo, descobriremos o que está causando o movimento. Tal é o momento onde encontramos as contradições que são as responsáveis pelo movimento interno de qualquer fenômeno.

Vejamos Lênin:

essência da dialética está na divisão de um todo e o conhecimento de suas partes contraditórias.Essa é uma das principais se não a característica principal da dialética. É precisamente como Hegel também formula esta questão.
(…)
Em matemática: os sinais (+) e ( -) ou Diferencial e integral.

Na mecânica: ação e reação.

Em física: eletricidade positiva e negativa.

Em química: a combinação e a dissociação dos átomos.

Nas ciências sociais: a luta de classes.

Depois disso, as outras leis fundamentaram as demais respostas. Por exemplo, ao sabermos que as contradições internas de um ovo gerarão um pinto, é porque também admitimos, além desse movimento interno do nosso objeto, a negação da negação e, considerando que este pinto não nascerá do dia para a noite, mas, antes, levará tempo para o desenvolvimento contraditório ali presente, também admitimos a lei da transformação da quantidade em qualidade.

Este foi o caminho básico adotado pela ciência autêntica até aqui.

Somente adotando este caminho foi possível aos grandes líderes do proletariado internacional a descoberta dos caminhos para a vitória dos oprimidos.

Somente com o método materialista dialético, enfim, é possível chegar às verdades científicas que entendem e mudam o mundo.