O Caminho Independente e o Caminho Dependente

Já dissertamos aqui sobre os rumos que serão tomados (e vêm se confirmando) por Jair Bolsonaro no poder. Apesar de termos indicado o caminho das lutas no mesmo texto, todavia, não esclarecemos um aspecto fundamental: o caminho que esta luta deve tomar.

Ou seja, dependente ou independente?
Reflitamos sobre ambas conceituações.

Ao evocarmos o caminho de luta independente, temos como referência aquele traçado pelos honestos, patrióticos e democratas movimentos da juventude, do campesinato e do proletariado — e até da parcela progressista e honesta pequena-burguesia — , organizados sob a lógica dos próprios anseios conscientes classistas e não no seguidismo ao atual sistema político, bem como renegando pautas liberais-burguesas.

Em relação ao caminho dependente, fazemos referência aos tipos de movimentos sociais e Partidos orientados para reafirmar o atual sistema político, assim como norteados por pautas e reivindicações comuns ao individualismo, o liberalismo e características discursivas progressistas, embora afastadas da realidade das massas populares.

Em momentos como este, os movimentos dependentes farão de tudo para absorver os independentes em seu seio. Momentos estes que, deixemos claro, há um evidente falhanço dos métodos destes tipos de organizações políticas.

Por tal falhanço, buscando uma reestruturação, venderão o medo, venderão a si mesmos até como revolucionários, ou grandes baluartes da rebelião, com o fim de rapidamente ganhar o terreno perdido e voltar ao velho jogo de cartas marcadas do decomposto sistema político brasileiro.

Ora, estes movimentos dependentes só acreditam na lógica eleitoreira de sempre por, de um lado, temerem a rebelião generalizada das massas e, de outro, acharem que o atual de estado de coisas — por pior que seja — , pode ser personificado neste ou naquele indivíduo, neste ou naquele Partido, nesta ou naquela gestão e não na estrutura econômica geral da sociedade.
Em outras palavras, os dependentes são oprimidos e sabem disso. Organizam-se em função disso. Contudo, miram na manutenção do status quo com filantrópicas melhoras aqui e acolá, visto que, no fundo, apenas temem que a miséria do “andar de baixo”, isto é, do proletariado e campesinato, chegue até o “andar de cima” que ocupam.

Donde concluímos que o pensamento dos movimentos dependentes, rebocados pelo Estado e reafirmadores deste, é essencialmente pequeno-burguês, manifestando os anseios das seções mais desonestas e oportunistas dessa classe.

Pois, de um lado, este tipo de movimento e Partido odeia a opressão que vive; de outro, teme a ditadura do proletariado.

Vejamos a definição de Marx sobre tal pensamento, o socialismo pequeno-burguês:

Nos países em que a civilização moderna se desenvolveu, formou-se uma nova pequena burguesia, a qual paira entre o proletariado e a burguesia e constantemente se forma de novo como parte complementar da sociedade burguesa, e cujos membros são constantemente atirados pela concorrência para o proletariado, vêem mesmo, com o desenvolvimento da grande indústria, aproximar-se um momento em que desaparecerão por completo como parte autônoma da sociedade moderna e serão substituídos no comércio, na manufatura, na agricultura por capatazes e criados.
Em países como a França, onde a classe camponesa perfaz muito mais de metade da população, era natural que os escritores que se apresentaram a favor do proletariado e contra a burguesia aplicassem à sua crítica do regime burguês a bitola pequeno-burguesa e pequeno-camponesa, e tomassem o partido dos operários do ponto de vista da pequena burguesia. Formou-se assim o socialismo pequeno-burguês.
(…)
Este socialismo dissecou com a maior acuidade as contradições nas relações de produção modernas. Pôs a descoberto os fingidos embelezamentos dos economistas. Demonstrou irrefutavelmente os efeitos destruidores da maquinaria e da divisão do trabalho, da concentração dos capitais e da posse fundiária, a sobreprodução, as crises, o declínio necessário dos pequenos burgueses e camponeses, a miséria do proletariado, a anarquia na produção, as desproporções gritantes na repartição da riqueza, a guerra industrial de extermínio das nações entre si, a dissolução dos velhos costumes, das velhas relações de família, das velhas nacionalidades.
Pelo seu teor positivo, porém, este socialismo quer ou restabelecer os velhos meios de produção e de intercâmbio, e com eles as velhas relações de propriedade e a velha sociedade, ou quer encarcerar de novo violentamente os meios modernos de produção e de intercâmbio no quadro das velhas relações de propriedade, as quais foram, tiveram de ser, por eles rebentadas. Ele é simultaneamente reacionário e utópico.

Atemporal e exato, Marx descreve como tal forma de “socialismo” faz denúncias pesadas às mazelas existentes, no entanto, buscando solucioná-las com bases ultrapassadas.

Naquele contexto, tratava-se de reforçar o que a burguesia industrial havia suplantado.
No contexto atual, do Brasil, trata-se de reforçar “melhores gestões”, “melhores partidos”, etc., que a burguesia burocrática suplantou com seu completo aparelhamento do sistema político e do Estado.

Então, já que sofreram a maior das derrotas das últimas décadas, tal “esquerda” investida com o sacrossanto socialismo pequeno-burguês, fará de tudo para garantir seu terreno político em cima dos honestos movimentos independentes.

Que fazer?
Ceder em nome de uma união acrítica contra tudo que está aí e dialogar com o eterno menos pior quando — e se — este voltar ao poder?
Marx ensinou que não:

No momento presente, em que os pequeno-burgueses democratas são oprimidos por toda a parte, eles pregam ao proletariado em geral a união e a conciliação, estendem-lhe a mão e aspiram à formação de um grande partido de oposição que abarque todos os matizes no partido democrático; isto é, anseiam por envolver os operários numa organização partidária onde predominem as frases sociais-democratas gerais, atrás das quais se escondem os seus interesses particulares e onde as reivindicações bem determinadas do proletariado não possam ser apresentadas por amor da querida paz. Uma tal união resultaria apenas em proveito deles e em completo desproveito do proletariado. O proletariado perderia toda a sua posição autônoma arduamente conseguida e afundar-se-ia outra vez, tornando-se apêndice da democracia burguesa oficialEssa união tem de ser recusada, por conseguinte, da maneira mais decidida. Em vez de condescender uma vez mais em servir de claque dos democratas burgueses, os operários, principalmente a Liga, têm de trabalhar para constituir, ao lado dos democratas oficiais, uma organização do partido operário, autônoma, secreta e pública, e para fazer de cada comunidade o centro e o núcleo de agrupamentos operários, nos quais a posição e os interesses do proletariado sejam discutidos independentemente das influências burguesas. Quão pouco séria é, para os democratas burgueses, uma aliança em que os proletários estejam lado a lado com eles, com o mesmo poder e os mesmos direitos, mostram-no por exemplo os democratas de Breslau, os quais no seu órgão, a Neue Oder-Zeizung, atacam furiosamente os operários organizados autonomamente, a quem intitulam de socialistas.

Em outras palavras, contra os oportunistas que andam à reboque do velho Estado e das classes dominantes, devemos demonstrar nossas mais sinceras críticas e repúdios.
Com as massas, ligar-se a estas, organizá-las e trazê-las cada vez mais para o efetivo, necessário e autêntico combate independente.

Sem nem por um instante, neste percurso, ceder ao medo, porque quem está ao lado do povo, verdadeiramente, é invencível.