Produto, Vitima e Culpado: Coringa um Questionamento da Loucura.

Essa critica contém alguns spoilers, se você não gosta deles, não prossiga.

Coringa, filme de Todd Phillips, é uma obra de arte completa, principalmente em meio a infinidade de “blockbusters” de forma bonita mas de essência duvidosa que temos hoje em dia. E me parece que é exatamente por isso que estão exigindo cuidado ao assistir filme, mas será que de fato é preciso cuidado?

O filme é ambientado em 1984 na cidade -fictícia- de Gotham, uma cidade cheia de lixo nas ruas, no que pode muito bem ser também uma metáfora para como tratam as pessoas dali, e cheia de ratos, que também pode ser uma metáfora para os políticos e burgueses da cidade. Com pessoas brutalizadas, uma cidade de um contraste social brutal, e por isso tão realista, que poderia ser qualquer cidade de um país semi colonial, assim como o Brasil, ou qualquer cidade periférica mundo a fora.

Por lá, assim como aqui, nada de novo, pessoas precisando de emprego, pessoas passando necessidade e a burguesia de lá representada -principalmente- por Thomas Wayne, dizendo que eles estão assim por falta de sorte, mas que tudo bem que todos os pobres daquela cidade podem ficar tranquilos, pois ele -numa prepotência messiânica- resolveria tudo e pra isso? Bastaria que elegessem ele a prefeito.

Nada de novo até aí, né? Para nós aqui também nada de novo.

Nada que nós também não soframos na democracia-burguesa brasileira, onde políticos e mais políticos, de suposta esquerda ou de direita, nos induzem a continuar votando na farsa eleitoral, como se ali estivesse a nossa solução, como se neles morasse a verdade que para nós, pobres proletários, é desconhecida.

Dito isso e o Coringa? E o tal do Arthur Fleck? E ele afinal?

O Arthur, quanto pessoa particular, sofre de transtornos psicológicos e um deles é vulgarmente chamado de “risada patológica”, mas também conhecido como labilidade emocional, transtorno perfeito para um personagem como o Coringa, mas o que realmente importa é perguntar da onde vem os transtornos que o afligem?

Então é preciso pontuar que não há consenso na medicina, sobre o determinismo biológico para uma doença mental, com exceção para patologias genéticas simples que são determinadas por alterações exclusivas em um único gene, mas já um fator que é consenso é o meio, o meio é o fator em jogo para essa unidade de investigação, e como já comentei acima qual era a situação da cidade em que ele vivia, vamos falar como era ele nesse meio e como esse meio era com ele.

Claramente desnutrido e com seus problemas psicológicos diagnosticados, Arthur trabalha de palhaço para sobreviver, no ambiente de trabalho é sempre destratado pelos seus colegas e pelo seu chefe. Arthur faz acompanhamento psicológico com uma assistente social, tem sua medicação para controle de seus problemas, mas chegou um momento que a verba foi cortada sem explicação plausível, e como tudo é uma mercadoria no capitalismo, ele a partir de agora precisava ter dinheiro para ter um acompanhamento pra sua doença e para comprar seus inúmeros remédios. Já na sua casa, um apartamento caindo aos pedaços em um subúrbio qualquer de Gotham, vive com sua mãe doente, onde mesmo sendo alguém que precisa de cuidados, é também um cuidador para um semelhante.

Mas não há nada na nossa vida que não possa piorar né?

Em um dia de trabalho, Arthur é sacaneado por adolescentes, é roubado e apanha, apanha, primeiro, porque as condições de descaso da cidade de Gotham brutaliza mais os seus cidadãos, e com o tecido social cada vez mais fino -prestes a rasgar- a luta de classes se acirra, trazendo a tona ideologias das mais reacionárias possíveis, e com isso vem o segundo motivo de apanhar, que é pelo motivo de ser quem é, um “esquisito”, bullying como gostam de dizer, mas o que seria além de um preconceito devido a marginalização das pessoas pobres que tem doença mental?

Nesse ponto eu preciso reafirmar que estou falando do filme CORINGA, pois é cômico quanto a essência desse filme reflete tão bem nossa situação atual.

E um dia de trabalho após o ocorrido, recebe de um colega uma arma para se defender, é entendível essa ação, além do porte de armas ser constitucional no USA, esse colega num raro momento de solidariedade, no filme, diz que ‘é preciso ter direito de autodefesa’, está correto, mas o próprio Artur o adverte que isso não está de todo o certo, lembrando da sua condição psicológica.

E apesar disso nos demonstrar uma irresponsabilidade, assim como em nossa realidade, nos mostra também o descrédito do povo com a capacidade do estado, e seus agentes, em prover segurança para sociedade, e não que isso desabone o direito a autodefesa, mas diz um pouco sobre o porquê dela ser mais que justa.

E com isso acontece o que era claramente inevitável, visto toda construção do personagem no longa, Arthur -travestido de palhaço- no metrô presencia três rapazes claramente alterados assediando uma moça, após a mesma sair correndo, Arthur dispara a rir, não porque quer, numa atuação primorosa de Joaquim Phoenix é visível a dor que o Arthur está sentido; mas num lugar onde ninguém existe e muito menos importa ao menos que tenha dinheiro, não dão a menor oportunidade para ele se explicar e o agridem.

E é aí começa o revide por parte do oprimido, Arthur com a arma dada a ele, de forma irresponsável, mata os três rapazes que ali estavam, se sente livre com isso, se sente bem, mais pra frente mata o colega que deu a arma, que bem lembrando o maltratava no trabalho, mata o apresentador de TV, em que via uma figura paterna que nunca teve, que o humilha em rede nacional.

Bastou essa primeira ação no metrô, do palhaço mascarado, como relatou a imprensa, para o estopim da massa oprimida de Gotham estar dado, ela se levantou e explodiu. A população tratou de apoiar a violência contra os ricos que se seguiu, manifestações vieram, e o símbolo disso tudo era esse palhaço. E isso é engraçado, primeiro pelo fato dele falar que não tem motivação política, ao mesmo tempo que após isso faça uma critica dura contra a sociedade que está inserido, e também dizendo que não tem nenhum envolvimento com as manifestações.

Foi construído um símbolo da revolta de Gotham, em cima de alguém que não tinha controle por si mesmo.
E isso é ruim? Isso vai incentivar alguém?

Isso não é ruim, Coringa é o produto de uma sociedade, que o negligenciou, é vitima do sistema que não liga pra ninguém que não tenha dinheiro, e por último e também importante de se lembrar é que o Coringa também é culpado por tudo que fez, por cada ação particular que tomou, por cada assassinato que cometeu, a diferença é que com toda construção -espetacular- dessa película, você passa a entender que para ter feito o que fez, chegado onde chegou, existiram diversos motivos, existiram oportunidades.

Coringa é um filme espetacular e arrisco a dizer que é um dos melhores, pra mim, dos últimos 10 anos. Um filme que consegue ter uma essência cruel, verdadeira e importante, numa forma incrível e impecável, é um questionamento a loucura, mas acima de tudo é uma crítica dura a sociedade capitalista.