Desde o fim dos anos 90, a América Latina testemunhou o avanço de discursos e políticas nomeadas “neoliberais”.

Para dar um conteúdo concreto, portanto de classes, a estas políticas vendidas, precisamos identificar qual classe tem interesse na venda de estatais eficientes, matérias-primas e desvalorização constante da mão de obra no terceiro mundo.

Esta classe é a Burguesia Compradora. Tal classe é solidamente identificada por Mao Tsetung, como integrante da Grande Burguesia, nas seguintes palavras:

“Na China, país economicamente atrasado e semi-colonial, a classe dos senhores de terras e a burguesia compradora são uns vassalos perfeitos da burguesia internacional; a sua existência e desenvolvimento dependem do imperialismo. Tais classes representam as relações de produção mais atrasadas e mais reacionárias; e constituem um obstáculo ao desenvolvimento das forças produtivas na China. A sua existência é de todo incompatível com os objetivos da revolução chinesa. Isso é particularmente verdadeiro com respeito à classe dos grandes senhores de terras e à classe dos grandes compradores, os quais estão invariavelmente ao lado do imperialismo e constituem a força contra-revolucionária extrema.”

Noutros termos, tal classe é a representação nacional dos interesses estrangeiros; e que, por isso, só tem a ganhar com as medidas tipicamente vendidas por Macris, Bolsonaros, etc., uma vez que seu lucro deriva da capacidade de endividar e tomar conta (cada vez mais) da produção do terceiro mundo, além dos recursos naturais e da força de trabalho.

Em comparação com sua irmã de sangue, a Burguesia Burocrática (outra fração da Grande Burguesia), a burguesia compradora é mais direitista e retrógrada em palavreado, discurso e políticas, dando à sua supracitada irmã, em comparação, até mesmo um verniz de “esquerda” ou preocupação social.

Ora, a Burguesia Burocrática é tão vassala do imperialismo quanto a Compradora, mas, por ser monopolista e, por vezes, usar do Estado para subir seus lucros, por vezes é mais permissiva nas aparências democráticas, nas políticas assistencialistas e assim por diante, uma vez que a dissimulação aqui, visando calar os trabalhadores e amortecer as lutas sociais, é mais útil que cuspir na cara da nação ao modo claramente entreguista da Burguesia Compradora.

Tais “burguesias” são, assim, irmãs, frações duma mesma coisa, que de mãos dadas, controlam o poder com divisões partidárias artificiais e, por vezes, alterando ciclos de dar com a mão esquerda ao pobre aquilo que tomarão, logo em seguida, com a mão direita.

Recentemente, porém, as coisas na América Latina, por um lado, extrapolaram os absurdos de longo prazo causados pelas políticas “neoliberais” da Burguesia Compradora (Chile); e, por outro, demonstraram certa contradição entre as frações da Grande Burguesia (Venezuela).

A mais recente Declaração Conjunta de Partidos e Organizações MLM (ainda sem tradução) demonstra que:

“O agravamento da crise geral do imperialismo leva governos da fração burocrática, como Maduro na Venezuela, a entrar em contradição com o imperialismo, pois este, para incrementar seus “super lucros” diante da crise tem necessidade de “privatizar” os ativos das grandes empresas estatais que se mantiveram como tais e persegue uma maior “abertura econômica” dos países sob governos da [fração] burocrática. Por isso, nestes países, a briga entre as facções reacionárias pelo controle do Executivo se agudizou.”

Com estas considerações, enfim, chegamos à situação da Bolívia.

É preciso deixar claro: Evo Morales jamais foi um socialista, um reformista, um comunista, ou qualquer coisa do tipo. O jornal A Nova Democracia, ao longo de seus mandatos, denunciou diversas atrocidades sob seu governo, (para citar uma, ver AND 212) bem como denunciou o caráter do governo de Morales:

“Há alguns meses, em AND 98, falamos sobre a falácia dos discursos duplos de alguns governos como os de Correa e Evo Morales na América do Sul. Eles não medem esforços para lançar ao vento bravatas carregadas de anti-imperialismo, enquanto empreendem uma feroz repressão contra os lutadores sociais, revolucionários e cidadãos indefesos. 
Em AND 98 mostramos como os governos da Bolívia, Equador, Venezuela e Brasil, durante a Assembleia Geral da OEA, realizada em Cochabamba, Bolívia, em 2012, fizeram uma campanha para diminuir as atribuições da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), acusando este organismo de defender interesses políticos contrários a seus Estados. Naquela oportunidade, afirmamos que tal intenção estava baseada em garantir a impunidade a todas as arbitrariedades cometidas contra os direitos civis e políticos de diversos cidadãos dos países latino-americanos. Demonstramos com uma série de fatos como Correa vinha executando um horrível plano macartista, difamando e desprestigiando um grupo de jovens equatorianos, através das forças repressivas e dos meios de comunicação leais a seu governo.”

Além disso, apesar da verve e do palavrório, Morales jamais deu passos concretos em direção à socialização dos meios de produção, construção do poder das massas populares de modo pleno (seja na forma de ditadura conjunta de classes antiimperialistas ou, efetivamente, do proletariado), etc.

Todavia, aqui retornamos a um passo anterior: as políticas agressivas da Burguesia Compradora.

Mais recentemente que os anos 90, o mundo testemunhou, em 2008, uma crise econômica praticamente sem precedentes. Com o fim da maré alta de commodities, só restou à marolinha virar tsunami, e as contas desta crise chegaram com força total.

Deste modo, mesmo um governo de “esquerda” com laços bem íntimos com políticas e ações antipovo, teve que ser derrubado para o cumprimento do novo, agressivo e irrefreável ataque parasita dos imperialistas, capitaneados em cada nação pelos membros da Burguesia Compradora deste ou daquele país.

Isto posto, cabe também esmiuçar as consequências finais e as práticas atuais dos regimes de aguda exploração imperialista em curso.

De forma geral, em Chile, Equador, Bolívia e Brasil, há uma intensa propaganda reacionária, por vezes, abertamente fascista, para que dar aos subalternos do imperialismo o poder completo do Executivo e, por consequência, o poder completo para uma agressão sem empecilhos aos direitos fundamentais das massas populares, bem como sua já desvalorizada força de trabalho.

No Brasil, nenhum outro representante da Burguesia Compradora e dos Latifundiários, sob o regime “democrático”, deixou tão claro o que quer.

Na Bolívia, porém, a questão já foi resolvida. Evo Morales “renunciou” por livre e espancada pressão e os próximos movimentos dos golpistas demonstrarão a verdade naquilo que estamos expondo. Inúmeros desmontes das conquistas populares, além de perseguições, crescerão, cabendo ao povo boliviano a tarefa urgente de reconstruir seu Partido, criar seu Exército e construir uma Frente Única para a libertação.

Portanto, o que lá aconteceu é para os patriotas, democratas e marxistas brasileiros um aviso, “um soco telegrafado”, como é dito no boxe, deixando clara a intenção dos reacionários que, hoje, saem cada vez mais das tocas para coroar com o poder da repressão estatal a fração compradora da Grande Burguesia.

Em face disto, deste Soco Telegrafado, devemos dar o maior exemplo de internacionalismo e antiimperialismo existente: fazer a revolução de Nova Democracia no Brasil.

Sem, porém, vacilar às tentações de apoiar frações “boazinhas” da Grande Burguesia, contudo, transformando a inesgotável energia das massas populares na energia necessária para criar das cinzas fétidas desse Velho Estado, um Novo.

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