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Entrevistas - 3 semanas ago

[Entrevista 2] A Arte e os Artistas do Povo – Karele MC

“Hey, hey, hey, negô. Você está em sintonia com a Revista AMIP. Eu, Kenny, comandando o melhor da Black Music.”

Muita coisa aconteceu desde a primeira entrevista desse quadro, mas voltamos — finalmente — e com maior vontade de encontrar e divulgar ao mundo os artistas do povo e sua arte.

O nosso entrevistado de hoje tem tudo a ver com o Rap. Esse gênero musical ganha mais notoriedade aqui no Brasil a partir dos anos 80 com dois dos seus maiores nomes sendo Facção Central e Racionais MC’s. 

O RAP brasileiro tem uma história muito ligada às ruas, à periferia, ao povo preto. Movimentos como as Batalhas da São Bento, em São Paulo, ajudaram a estabelecer a cena e fortalecer ainda mais a ligação do ritmo com as camadas mais pobres da sociedade.

O RAP (Rhythm And Poetry ou Ritmo e Poesia) ficou conhecido por carregar denúncias e gritos dos povos oprimidos em suas letras. Assim, é fácil entender o porquê é mais comum o RAP surgir das periferias.

Hoje, a nossa entrevista vai ser com o Karele MC. MC de 24 anos, morador do estado de São Paulo. E, além de tudo, um grande propagador da justeza da rebelião de nosso povo através da arte.

KENNEDY ALVES – AMIP: Primeiro, obrigado pela oportunidade de entrevista-lo. A intenção da AMIP aqui é conseguir encontrar os artistas do povo escondidos por aí e divulga-los pro mundo.

MC Karele, Karele MC como é que você gosta de ser reconhecido? Como os seus amigos te chamam?

KARELE MC: Eu agradeço o espaço e a oportunidade de expor minhas ideias na Revista Amigo do Povo, acompanho esse trabalho e o admiro muito. Bom, as pessoas mais próximas a mim me chamam de Carele, que é meu sobrenome.

KA [AMIP]: Posso te chamar assim durante a entrevista então?

KMC: Claro.

KA [AMIP]: Cara, me conta como começou sua história com a música? Com quantos anos você começou a cantar?

KMC: Minha família sempre escutou rap, principalmente meu irmão mais velho, que já cantava em um grupo chamado Nossa Voz. Escrevi minha primeira letra em 2014 e convidei uma companheira pra formar um grupo e dar vida à essas letras, e foi aí que nasceu em 2015 o Ameaça Vermelha – Rap Combativo.

KA [AMIP]: Rap é o estilo que você canta hoje, mas você gosta de ouvir mais alguma outra coisa? Se puder compartilhar com a gente, fala alguns artistas que você mais gosta e/ou que mais te marcaram pra você ser quem você é hoje.

KMC: Tenho muita referência fora do rap, nomes que cresci ouvindo e que tiveram grande influência no trabalho que desenvolvo hoje, como Geraldo Vandré, me lembro de escutar suas músicas ainda criança.

Já puxado mais pro rock gosto de Rage Agains The Machine (RATM), que sempre esteve nos meus fones. Na pré adolescência eu gostava muito de algumas bandas do punk nacional, entre vários outros.

Hoje em dia eu ouço de tudo, percebi que sempre me aproximei de culturas que continham um cunho ideológico de crítica à sociedade, mantive isso vivo dentro de mim, hoje de forma mais consciente.

Da atualidade gostaria de citar a banda carioca El Efecto, que é sensacional.

KA [AMIP]: Ouvindo suas composições, elas são ideologicamente muito claras. Onde você acha que foi a sua virada de chave para produzir esse tipo de conteúdo?

KMC: Em 2013 tive a honra de participar ativamente das Jornadas de Junho e isso me marcou profundamente e foi daí que nasceu a primeira letra. Tenho certeza que 2013 foi determinante pro meu trabalho com a música, mas não só. Compartilho da visão de que as Jornadas marcaram uma nova etapa na luta de classes no Brasil, a etapa da combatividade.

Não há dúvidas de que quem estava lá foi marcado profundamente pelos anseios de mudança daquela juventude.

KA [AMIP]: Ouvindo seu trabalho, tem uma música sua “Poesia Periférica” que um trecho me chamou muita atenção: “A responsa no Rap é saber pra quem se fala! / Cada verso é uma bala, e não poder ser perdida / Tenho atenção, de quem luta pela vida! / Rima e batida não é o suficiente / Que a nossa arte deixe claro e consciente”

Você parece dar uma mensagem muito clara ao rebaixamento da essência das letras no RAP da atualidade. Você acha que o RAP, hoje, se rebaixa para fazer sucesso e ganhar dinheiro?

KMC: Sobre o rap se rebaixar pra caber nas regras da indústria cultural burguesa, acredito que vá mais além disso. É um processo que tem início já na década de 90, de cooptação da cultura rap por parte indústria e a mídia e o esvaziamento do conteúdo popular e combativo.

Se antes os rappers eram perseguidos e censurados por denunciar o genocídio nas periferias, hoje estão cristalizados na mais descarada ideia de meritocracia, “o topo” do rap é a expressão do quanto fomos contaminados pelas ideias liberais.

Mas não vejo isso como má fé dos artistas, pelo menos não todos, como eu disse, isso é um processo levado a cabo pela ditadura cultural do imperialismo ianque, só a luta revolucionária pode reverter esse quadro.

KA [AMIP]: Legal você falar em ditadura cultural, me lembrou um trecho de uma outra música sua chamada “Tomado de Assalto”, que você diz: “Aplico na cultura o ódio dos muleque / (…) a porra do seu trap influencia nos pivete”

Pra você qual é o papel da arte num geral, na luta revolucionária no Brasil?

KMC: Isso sempre foi um grande debate pro Ameaça Vermelha, qual é o papel dos artistas do povo?

Acredito que todo artista deve debruçar nessa questão afim de entender melhor o que é a arte revolucionária.

O objetivo de toda ação muda, conforme muda a realidade objetiva, certo? A arte precisa estar atenta a isso, precisa se perguntar: “Qual momento vivemos no Brasil e no mundo?”

Fica fácil entender qual nosso papel aqui, quando entendemos a realidade ao redor. A arte tem objetivos gerais que todos podemos facilmente entender, como o dever de apoiar e propagar a justa rebelião dos povos do mundo inteiro. Nem um romance está livre da luta de classes, não existe arte neutra, é preciso se posicionar.

Mas também os objetivos mais específicos, que correspondem a um processo específico, por exemplo…

No Brasil, a luta pela terra sempre foi um barril de pólvora, temos um arsenal de histórias como Trombas e Formoso, as ligas camponesas do Julião, as batalhas da Vila Curumbiara, histórias que mostram que o campesinato brasileiro sempre empunhou armas para lutar pelo direito a terra, roubado pelos latifundiários com total impunidade pelo Estado Brasileiro. Daí que essa luta toma novos ares, o camponês está tomando as terras, guiados por um movimento forte e coeso, levam a Revolução Agrária pros quatro cantos do país, colocando em evidência o que muitos negam  ver; a semifeudalidade, a servidão nos campos como base pra ‘economia’, a grande fazenda do imperialismo que o Brasil se tornou.

Pois bem, como um artista pode ignorar um fato tão alarmante como esse em nosso país?

Acredito e assumo esse dever, como objetivo específico do que vivemos, de apoiar e levantar alto a bandeira dos camponeses em luta, pela terra aos seus verdadeiros donos e o fim do latifúndio. Em síntese a arte, no geral, precisa acompanhar as necessidades objetivas de seu povo, acredito que assim se faz arte autenticamente popular.

KA [AMIP]: Carele, foi um prazer enorme conversar com você e conhecer um pouco mais sobre você e sua vida de artista do povo.

Conseguir enxergar que mesmo nessa imensidão de artistas pasteurizados, imersos nessa “ditadura cultural”, falando só sobre o que pode proporcionar dinheiro ainda existem os que estão aqui para impulsionar ainda mais os desejos do povo.

Se quiser divulgar seu trampo ou qualquer coisa fica à vontade o espaço é todo seu.

KMC: Eu que agradeço o reconhecimento, é uma honra sem tamanho poder servir ao povo através da arte. Vou deixar os links dos canais no YouTube e algum contato.

Youtube Karele MC

Youtube Ameaça Vermelha

Pra contato o instagram: @karele.mc