O texto a seguir é um trecho do discurso de Karl Marx na inauguração da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Nele, Marx mostra a importância fundamental na fraternidade dos povos na sua luta revolucionária perante o capitalismo e como essa luta só pode ser levada a cabo se eliminado qualquer preconceito burguês nacional. Passagem de extrema importância num momento onde ‘marxistas’ de toda sorte, discursam em tom supostamente revolucionário, enquanto escondem as críticas necessárias contra os governos burgueses, oportunistas e imperialistas, quando esses se dizem ‘anti-imperialistas’. Também é uma bandeira contra todo o tipo de pessimismo dos que acreditam que não é possível reverter a situação existente no Brasil e no mundo.

Por Karl Marx

“(…)Após o fracasso das Revoluções de 1848, todas as organizações e os jornais partidários das classes trabalhadoras no continente europeu foram esmagados pela mão de ferro da força, os filhos mais avançados do trabalho fugiram em desespero para a república transatlântica, e os sonhos efêmeros de emancipação desvaneceram-se diante de uma época de febre industrial, marasmo moral e reação política. […] As descobertas de novas terras dotadas de reservas de ouro levaram a um êxodo imenso, deixando um vazio irreparável nas fileiras do proletariado britânico. Outros de seus membros, anteriormente ativos, foram fisgados pelo suborno temporário de trabalho e salário melhores, convertendo-se em “fura-greves políticos” [political blacks].

Todos os esforços feitos para conservar ou remodelar o movimento cartista fracassaram fragorosamente; os órgãos de imprensa das classes trabalhadoras morreram um após o outro em decorrência da apatia das massas, e, de fato, nunca antes a classe trabalhadora inglesa pareceu tão absolutamente reduzida a um estado de nulidade política. Se, pois, não houve qualquer solidariedade de ação entre as classes trabalhadoras britânicas e continentais, houve, em todo o caso, uma solidariedade de derrota.

E, no entanto, as Revoluções de 1848 não deixaram deixaram de apresentar seus aspectos compensadores. Destacaremos aqui apenas dois fatores importantes.

Após uma luta de trinta anos, travada com a mais admirável perseverança, as classes trabalhadoras inglesas, aproveitando-se de uma cisão momentânea entre os senhores da terra e os senhores do dinheiro, conseguiram aprovar a Lei das Dez Horas. Os imensos benefícios físicos, morais e intelectuais que isso trouxe aos operários fabris – benefícios registrados nos relatórios semestrais dos inspetores de fábricas – são agora do conhecimento de todos. A maioria dos governos continentais teve de aceitar a Lei Fabril [Factory Act] inglesa em formas mais ou menos modificadas, e a cada ano o próprio Parlamento inglês é forçado a alargar sua esfera de ação. Mas, além de sua importância prática, havia outra razão para exaltar o esplêndido sucesso dessa medida favorável aos trabalhadores.

Por meio de seus mais notórios órgãos de ciência, tais como o dr. Ure, o professor Senior e outros sábios da mesma estirpe, a classe média havia predito – e, para seu regozijo, provado – que qualquer restrição das horas de trabalho significaria necessariamente a morte da indústria britânica, que, como um vampiro, não pode viver senão a sugar o sangue humano, e também o de crianças.

(…)

Essa luta pela restrição legal das horas de trabalho tornou-se mais feroz na medida em que, além de uma amedrontada avareza, ela revelava, na verdade, a grande luta entre o domínio cego das leis da oferta e da demanda – que formam a economia política da classe média – e a produção social controlada por previsão social [social foresight] – que forma a economia política da classe trabalhadora. Assim, a Lei das Dez Horas foi não só um grande sucesso prático, mas a vitória de um princípio; foi a primeira vez em que, em plena luz do dia, a economia política da classe média sucumbiu à economia política da classe trabalhadora.

Porém, estava por vir uma vitória ainda maior da economia política do trabalho sobre a economia política da propriedade. Referimo-nos ao movimento movimento cooperativista, especialmente às fábricas cooperativas erguidas pelos esforços solitários de umas poucas “mãos” audazes. O valor desses grandes experimentos sociais não pode ser desprezado. Mostraram com atos, em vez de argumentos, que a produção em grande escala e em conformidade com as exigências da ciência moderna pode ser realizada sem a existência de uma classe de patrões a empregar uma classe de mão de obra; que, para dar frutos, os meios de trabalho não precisam ser monopolizados como um meio de dominação e de espoliação do operário; e que, tal como o trabalho escravo ou o trabalho servil, o trabalho contratado não é senão uma forma transitória e inferior, destinada a desaparecer diante do trabalho associado, que executa sua tarefa com uma mão laboriosa, uma mente disposta e um coração alegre.

Ao mesmo tempo, a experiência do período de 1848 a 1864 demonstrou, acima de qualquer dúvida, que, por mais excelente em princípio e útil na prática, o trabalho cooperativo, se mantido nos limites estreitos dos esforços casuais dos operários privados, jamais conseguirá deter o crescimento em progressão geométrica do monopólio, tampouco aliviar minimamente o fardo de suas misérias. É talvez por essa razão que nobres bem-falantes, tagarelas filantrópicos de classe média e mesmo perspicazes economistas políticos passaram de repente, e de maneira repugnantemente elogiosa, a valorizar o mesmo sistema de trabalho cooperativo que, em vão, haviam tentado descartar, desprezando-o como uma utopia de sonhadores ou estigmatizando-o como um sacrilégio de socialistas.

Para salvar as massas industriais, o trabalho cooperativo deveria ser desenvolvido em dimensões nacionais e, consequentemente, ser promovido por meios nacionais. No entanto, os senhores da terra e os senhores do capital sempre usarão seus privilégios políticos para a defesa e a perpetuação de seus monopólios econômicos. Em vez de promover, eles continuarão a colocar todo tipo de impedimentos no caminho da emancipação do trabalho. Lembremo-nos do sarcasmo com que, na última sessão, lorde Palmerston golpeou os apologistas da Lei dos Direitos dos Rendeiros Irlandeses [Irish Tenants’ Right Bill]. A Câmara dos Comuns, exclamou ele, é uma câmara dos proprietários fundiários.

Conquistar o poder político tornou-se, portanto, o grande dever das classes trabalhadoras. Elas parecem ter compreendido isso, pois na Inglaterra, na Alemanha, na Itália e na França ocorreram simultâneos restabelecimentos, e esforços concomitantes estão sendo atualmente realizados para a organização política do partido operário.

Um elemento de sucesso elas possuem: o número de seus membros. Mas essa quantidade só pesa na balança se esses membros são unidos por uma articulação comum e guiados pelo conhecimento. A experiência passada mostrou como a desconsideração desse elo de fraternidade, que deve existir entre os trabalhadores de diferentes países para que estes se mantenham firmes, apoiando-se mutuamente em todas as suas lutas emancipatórias, será castigada com a derrota de seus esforços desconexos. Foi com esse pensamento que trabalhadores de diferentes países, reunidos em 28 de setembro de 1864 numa reunião pública no St. Martins’s Hall, resolveram fundar a Associação Internacional dos Trabalhadores. Outra convicção motivou aquela reunião.

Se a emancipação das classes trabalhadoras requer sua confluência fraternal, como eles poderão cumprir essa grande missão com uma política externa pautada por desígnios criminosos, exercida com base em preconceitos nacionais e que desperdiça o sangue e as riquezas do povo em guerras de pirataria? Não foi a sabedoria das classes dominantes, mas sim a resistência heroica que as classes trabalhadoras da Inglaterra impuseram à sua loucura criminosa o que salvou o oeste da Europa de mergulhar numa infame cruzada pela perpetuação e propagação da escravatura do outro lado do Atlântico.

A insolente aprovação, fingida simpatia ou idiótica indiferença com que as classes altas da Europa testemunharam a fortaleza montanhosa do Cáucaso tornando-se presa da Rússia, que também assassinou a heroica Polônia; as imensas invasões, sem resistência, promovidas por esse poder bárbaro, cuja cabeça está em São Petersburgo e cujas mãos encontram-se em cada governo da Europa, ensinaram às classes trabalhadoras o dever de dominarem elas mesmas os mistérios da política internacional, de vigiarem as ações diplomáticas de seus respectivos governos, de confrontá-los, se necessário, por todos os meios a seu dispor; não podendo preveni-los de articularem denúncias simultâneas e reivindicarem que as mesmas leis simples da moral e da justiça, que deveriam governar as relações entre indivíduos privados, valham como as regras supremas do intercurso das nações.

A luta por tal política externa faz parte da luta geral pela emancipação das classes trabalhadoras.

Proletários de todos os países, uni-vos!”

Fonte: Trabalhadores, uni-vos! – Marcelo Musto

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