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Arte do Povo - Nova Cultura - Política - 18 de dezembro de 2020

A violência não é uma opção. É uma necessidade.

Enquanto discutia com alguns amigos sobre as diferenças do rap dos anos 80 e 90 em comparação com a atual geração do mainstream, entendemos que há presente um tipo de violência superficialmente distinta, embora permaneça a mesma em essência.

O rap que cresci ouvindo era nu e cru. Havia um interesse na música em si, mas o principal era a denúncia descarada e pesada da realidade vivida na época: da violência sofrida pelos operários, majoritariamente pretos, no Brasil. A isso não faltam exemplos como Facção Central, Racionais Mcs, Trilha Sonora do Gueto, etc.

Grande parte dos grupos de rap dos anos 80 e 90 não tinham como produzir, a própria música e se aprofundarem em beats ou lírica. O que os fazia explodir em vendas de discos era o próprio cotidiano violento. O ato de falar o que estava engasgado na garganta de muitos.

Hoje, com melhores condições de produção – possíveis, embora ainda extremamente difíceis de alcançar – no rap, vemos a preocupação sonora dos grupos, que agora apresenta uma dualidade. A dualidade entre o rap da violência e da esperança cotidiana e o rap que, em detrimento da produção musical, camufla a essência violenta da rua.

Partindo dessa reflexão do rap, o assunto que gostaria de tratar aqui é o da violência.

Lembro-me de como, quando criança, ouvia as pessoas falarem que Racionais era “música de bandido” e que eu deveria parar de ouvi-la porque me tornaria um. Claro que essas palavras vinham de quem se enxergava enquanto uma “classe média”, que imaginava ter um poder de compra relevante ou fazer parte de uma vida meritocrática.

É evidente que esse tipo de pessoa sinta desconforto com a violência das músicas do Facção, do Racionais, do T$G porque não as percebem enquanto descrições, críticas e resposta à violência cotidiana que os mais pobres sofrem todos os dias. Racionais canta a realidade vivida no Capão: a realidade do emprego sub-humano, da exploração capitalista mais elevada, da crueldade das classes dominantes, do genocídio do povo preto e pobre, do povo brasileiro. Canta, para além disso, sobre suas esperanças e seus desejos.

Dito isto, é importante salientar que a violência, para as classes dominadas, não é uma opção. A violência é o cotidiano. É a realidade. A violência revolucionária é, ainda, a saída.

Ninguém escolheria violência se tivesse a opção da paz. Ninguém quer perder amigos, colegas e familiares que são tão importantes à nossas vidas. Contudo, numa realidade em que essas pessoas queridas constantemente se vão, seja na mão da polícia ou da fome gerada pelos criminosos bilionários, a violência é uma realidade.

A opção da paz não existe. É uma guerra que não cessa. 

A violência revolucionária é, para todas as classes dominadas, o que garantirá a paz dos nossos filhos.

“Fugir do problema queria só paz, mas não
Vivo a ferro e fogo agora sem proteção
Tava enferrujado mais ainda era oitão
Ainda disparava e agora o que eu faço me fala, pra matar elefante na sala”