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Arte do Povo - Crônica - 16 de setembro de 2020

Sob meus olhos, as suas coisas

Nas pausas do trabalho, que uso pra me entupir de café, também fico pensando em aleatoriedades. Dessa vez queria falar sobre algo que sempre ouvi a galera falando e sempre me incomodou. Mistificaram isso e, como se não bastasse, tratam também como se fosse algo “natural” que sempre existiu.

Hoje vou falar sobre a tal da inveja, visto que ela é um sentimento real, embora sua mistificação não.

“Não fale das suas conquistas por causa da inveja dos outros.”
“Os outros têm inveja das coisas que você tem.”
“Tem espaço pra todo mundo, não precisa invejar o dos outros.”

Então o nosso primeiro passo é falar do aspecto místico quando falam sobre o “sentir inveja”.

Neste ponto podemos ser breves e apontar sobre como tratam a inveja como força invisível sob nós, um novo deus. E essa força invisível nos impede de realizar, de fazer dar certo ou conquistar nossas coisas.

Aqui a conclusão é simples e parte de duas perguntas.

Existe uma força invisível? Um deus inveja?

Como não podemos responder essas questões e também não nos interessa nada fora do mundo, vamos tomar a premissa óbvia como nossa resposta:

Não há energia invisível que parte dos outros e nos impeça de fazer nada, não há o espirito zombeteiro da inveja.

E com isso em mente, vamos analisar o que podemos e o que é comum quando falamos em inveja.

Mas antes, um parentese rápido para a definição que está no dicionário:

    1- Desgosto provocado pela felicidade ou prosperidade alheia.
    2- Desejo irrefreável de possuir ou gozar o que é de outrem.

No emprego: não fale que vai subir de cargo, a inveja dos outros pode atrapalhar.

Nas conquistas materiais: não fale que vai comprar um carro, a inveja dos outros pode atrapalhar.

Em casa: não esbanje, a inveja dos outros já viu né?

No relacionamento: não espalhe sua felicidade, a inveja pode acabar com tudo isso.

Tenho certeza que todos já presenciaram essas frases nas mais diversas situações possíveis. Vocês conseguem perceber o que elas tem em comum no geral?

Todas elas, seja no âmbito que for, têm em comum o sentimento do outro pela conquista alheia. Mas quanto mais penso sobre o assunto, mais vou chegando a conclusão do quanto isso é normal, quanto isso é na verdade compreensível.

Pra poder dizer o que preciso, vamos antes dar uma relembrada no movimento atual do capital.

Hoje o Capitalismo, na sua atual fase Imperialista, tende sempre ao monopólio. E o que isso quer dizer? Quer dizer que se vemos cada vez mais poucos conglomerados controlando tudo, vemos também que a riqueza está concentrada cada vez mais em pouquíssimos indivíduos.

Vemos as crises capitalistas cíclicas acontecerem com menor intervalo e as condições de trabalho cada vez mais precárias.

Sim, cheguei onde queria. Vocês chegaram junto comigo? Nós, em escala menor, estamos fazendo o mesmo movimento do capital!

Agora, somado a isso, percebemos que, atualmente, em plena era da comunicação e da tecnologia – onde tomamos ciência mais fácil e rapidamente das posses materiais dos outros – percebemos que a situação do trabalhador está ainda mais estrangulada do que um dia foi. O que poderíamos nós pensar?

Sempre que vemos algum trabalhador tendo acesso ao que seria o mínimo do mínimo necessário para existir, seja comida, cultura ou acesso a tempo para se ter um relacionamento, nos sentimos estranhos à ele, afinal, cada vez mais, só o burguês pode consumir.

E, se percebemos que nossa situação como trabalhadores está cada vez pior, conseguimos perceber também que cada vez mais o sentimento de competição entre os trabalhadores – para poder vender a força de trabalho – fomenta o seguinte:

“Um toma o lugar do outro, um é inimigo do outro na competição de ganhar a vida, um ter significa que você “perdeu” a chance de ter.”

Com um mundo assim, vivendo no limite em busca da dignidade a gente é culpado em sentir inveja?

Se esse é o padrão da ideologia burguesa, a competição vil, a competição que adoece a sociabilidade, poderíamos nós fazermos uma suposição pretensiosa?

Seria a “inveja” um sentimento nascido por conta de uma sociedade desigual?

Seria a “inveja” um sentimento intrínseco à sociedade de classes? Um sentimento intrínseco a uma sociedade que tenha a propriedade privada como pedra angular?

Infelizmente dessa vez não estou aqui com uma resposta, mas sim para provocar uma reflexão…

Será que a nova sociedade que construiremos, com oportunidade e dignidade para nossa classe, dará fim também a esse fantasma? Fantasma que adoece as nossas relações, que nos impede de amar e celebrar a conquista do outro.

Q’eu esteja certo, que no nosso mundo seja comum o aplauso da conquista.  

"Não te irrites, por mais que te fizerem
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio." 
                                                       — Mario Quintana