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Arte do Povo - 19 de abril de 2020

Cultura Nacional: Adeus Moraes Moreira!

No dia 13 de Abril se apagou um grande espírito da cultura nacional e a Revista vem render sua pequena homenagem. Moraes Moreira, baiano, instrumentista, cantor, compositor, enfim, um músico sem igual que, junto ao seus companheiros de banda, deixou uma profunda marca na música popular brasileira.

Dotado de grande talento e de experimentalismo que não abandonava as raízes nacionais, suas composições consagraram o concretismo poético na música, através de construções criativas com a língua portuguesa.

A banda Novos Baianos, que fundou junto com seus companheiros Luís Galvão, Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo, Pepeu Gomes e outros, está entre uma das mais consagradas e respeitadas da música brasileira. Admirados pelo seu ‘profeta’ – guia do caminho artístico que seguiriam – e mestre João Gilberto, de forma dialética, também o influenciara em seu álbum homônimo de 1973 – tal era a colaboração desses grandes gênios.

Capa do primeiro disco solo de Moraes Moreira, de 1975 (Foto: Divulgação)

O grupo criou um dos álbuns mais aclamados do rock/pop, Acabou Chorare, usualmente lembrado como “o melhor álbum brasileiro de todos os tempos” por causa da revista Rolling Stones – embora, como nação, não tivéssemos necessidade de um selo de reconhecimento gringo – onde Moraes participou de quase todas composições. Disco que, como história comum das subversões estéticas, em sua época de lançamento, não foi aclamado pela crítica, nem aproveitado pela indústria cultural, só mais tarde ganhando enorme reconhecimento interno e externo.

Sua importância para a música brasileira é quase imensurável, tendo influenciado diversos artistas da MPB, samba, rock, pop, e até mesmo os ritmos de carnaval. Fez parte da criação de uma estética desconhecida até então, sintetizando o que parecia inconciliável à época: a proposta pop universal (talvez melhor dito ocidental) do rock com a música autêntica brasileira, com originalidade que pouco se viu depois, deixando um imenso legado.

Agora se junta à seu parceiro João Gilberto no panteão dos gigantes da nossa cultura. Morreu, neste momento, como tantos outros brasileiros: na angústia da quarentena. Porém, sai de cena para ser imortalizado na história da cultura nacional – tão vilipendiada pelas tentativas do imperialismo de pasteurizar e enlatar a criatividade e inventividade de nossos artistas populares.

Apesar da idade avançada, ainda estava ativo e produzindo. Em um dos últimos suspiros de seu gênio, Moraes Moreira deixou esse cordel em sua rede social, onde mostra que, como artista popular, não esteve alheio aos problemas das massas e, também por isso, vai embora de forma gloriosa:

“Eu temo o coronavírus
Zelo por minha vida
Mas tenho medo de tiros
também de bala perdida
A nossa fé é vacina
O professor que me ensina
Será minha própria lida”