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Arte do Povo - Crônica - 20 de março de 2020

Um paulistano inconformado com o corona

mas com o capitalismo também

Hoje presenciei uma cena rotineira e uma que me surpreendeu na minha vida de paulistano.

Infelizmente, como é rotineiro, guardas da CPTM tomaram mercadorias de trabalhadores informais, que enfrentam o drama e o ódio de serem repreendidos ao mínimo uma vez ao dia pela patrulha que rouba seus produtos e distribui entre si.

Não pude registrar mais que o que está abaixo devido a quantidade dos chamados PFs (porcos fardados) xingando e desrespeitando aquele que vende pururuca, pipoca e água a preços completamente acessíveis para trazer o pão nosso de cada dia.

Mas uma coisa me incitou uma raiva, como também é rotineiro. Em tempos de pandemia do coronavírus e de crise do capitalismo, a informalidade sofrerá ainda mais, assim como a formalidade. O governo federal acaba de anunciar que as empresas (coitadinhas) poderão dispensar funcionários e pagar metade da mixaria que recebem. Por motivos óbvios, motoristas de aplicativos, pessoas que vendem o cafézinho da manhã em suas humildes barracas, o famoso shopping metrô-trem vão passar por momentos terríveis.

Porém, o que só vemos na grande mídia e nos jornais em toda a sua programação quase que terrorística sobre a pandemia é a romantização da quarentena (como se fosse algo que todos nós pudéssemos fazer ao invés de produzir e trabalhar mais e mais), a dó para com pessoas poderosas morrendo ou contraindo o vírus, a bolsa despencando, o dólar como um foguete, as ações do velho Estado frente a situação…

Enfim, não ocupam o seu tempo com coisas que precisariam realmente serem ditas, como a contradição entre os leitos totais do Brasil serem dividos em 50% para SUS e 50% planos de saúde, uma vez que muito mais da metade da população não tém estes planos; o fato do trabalhador urbano enfrentar um transporte público já caótico e, agora, com altos riscos de contaminação; empresas negligenciando ao máximo a saúde dos explorados em nome do acúmulo infinito de capital; a falta de hospitais no campo (mesmo que a doença “demore” para chegar lá).

Em toda esta situação, uma coisa me animou, me deixou com mais esperança.
Ver a indignação da população trabalhadora sobre todo o descaso sofrido e o privilégio dos ricos, da burguesia e, também, voltando ao início, a indignação rotineira de ver os malditos guardas fazendo seu saque diário dos produtos comercializados no trem e no metrô.
Além disso, um dos marreteiros disse hoje coisas sensacionais ao ter que fazer seu corre vendendo máscaras cirúrgicas:

Hoje, somos verdadeiros escravos do capital, do imperialismo, do latifúndio. Mas não ache que o povo é bobo não, seu doutor. Cada raiva orgânica, cada sentimento de ódio, de inconformação, de raiva mesmo é organicamente construtor.

E um conselho aqui aos militantes, aos bem intencionados, aos que se pretendem revolucionários: canalizem tudo isto para si rumo à transformação para uma vida melhor e, neste caso, uma saúde digna a todos. Aproveitem o fato de um dos falecidos pelo coronavírus morreu no corredor do hospital sem atendimento. Falem com os seus e estimulem a indignação. Nada é por acaso. Toda esta situação possui um caráter de classe. Uma quer nos ver morrer. A outra pode construir um mundo novo.

Já que temos que falar a respeito do coronga, falemos do nosso ponto de vista até não aguentarmos mais.