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Mundo - Política - 16 de dezembro de 2020

A ALIENAÇÃO DO ESPORTE DO POVO

O jornalismo esportivo defende a transformação dos times de futebol em empresas e calendários mais curtos para sanar dívidas, evitar a corrupção dos cartolas e melhorar o futebol brasileiro. O que eles querem é lucrar em cima do esporte do povo. Temos que tomá-lo de volta!

I – O cenário atual

Não é novidade o cenário atual do futebol brasileiro: clubes endividados, alguns jogadores com salários quase milionários; empresários, empresas e cartolas ganhando rios de dinheiro às custas dos clubes; ingressos custando o olho da cara.

No entanto, a mercantilização e, consequentemente, a alienação do futebol para com as massas trabalhadoras é resultado de um processo histórico no contexto de formação do capitalismo brasileiro (burocrático, servil ao imperialismo).

Ou seja, aquilo que antes era formado e gerido pelos trabalhadores de forma amadora e prematura foi tomado, transformado em balcão de negócios de uma burguesia média e, principalmente, da grande burguesia brasileira e imperialista.

O parasitismo empresarial, a má gestão dos clubes, a contradição econômica e geográfica gritante entre a “elite do futebol” e o restante dos times, são consequências de um processo que tem como a cereja do bolo o projeto de clube-empresa – tão defendido pela mídia esportiva para “sanar” problemas latentes do futebol atual, como o endividamento dos clubes, a baixa competitividade, a falta de profissionalismo, dentre outros.

Examinemos ponto a ponto as falácias burguesas acerca do futebol.

para provar ao leitor que os problemas vistos hoje são intrínsecos à alienação e ao ‘aburguesamento’ do esporte, bem como justificar a verdadeira solução disto: a retomada do futebol pelo povo como parte do processo de revolução social que expulse o imperialismo e rume ao socialismo.

II – Do amadorismo à profissionalização lenta e gradual

Hoje, parte do povo vive do esporte enquanto profissão e outra parte consome futebol como entretenimento midiático e cultural. Isto se iniciou no século XX, período em que o Brasil passava por transformações graduais socioeconômicas e políticas em direção ao capitalismo-burocrático.

Diferentemente da Inglaterra, berço mundial do futebol, e de muitos países da Europa [3], as entidades esportivas daqui não nasceram com fins lucrativos. Lá, os clubes já nasceram como “companhias limitadas”. Aqui, times e campeonatos nasceram e foram geridos num primeiro momento como amadores, isto é, sustentados pelos próprios trabalhadores. Logo, as condições de infraestrutura e de continuidade dos times dependia diretamente das condições materiais das massas trabalhadoras e, em menor número, de setores médios da sociedade.

A partir do período de 1930 à 1940 o futebol passa a ser visto como potencial meio de acumulação pelos patrocinadores, fornecedores de materiais e mandatários.[4] Em um cenário de amadorismo, em que os jogadores sobreviviam de seus trabalhos, os “salários” que proviriam do futebol, agora profissional, serviam para “atraí-los”, quer dizer, para potencializar os ganhos neste processo. [4]

Porém, a profissionalização é lenta e desigual. Enquanto cada vez mais uma parcela dos jogadores se tornavam exclusivamente jogadores, uma elite do esporte era paulatinamente criada – concentrada no Sudeste, em primeiro lugar. Por outro lado, a maioria das agremiações em parte assistia, em parte acompanhava este processo adentrando à profissionalização sem ter os investimentos financeiros necessários à mesma.

Durante todo o resto do século XX, este processo caminhou, tendo uma aceleração nos anos 1990 com a chegada da possibilidade do clube mudar de maneira definitiva a sua função na sociedade. Dessa forma, acompanhou as mudanças da Europa, o “centro do futebol”, potencializando também os ganhos provenientes das transferências de jogadores por parte dos empresários e cartolas.

Isto é, os clubes adentraram mais forte ao mercado com suas “mercadorias” com as leis Zico e, especialmente, Pelé. Esta última findou a antiga “Lei do Passe” e, com efeito, deu mais parâmetros de organização aos clubes que pretendiam ser associações comerciais, além de regulamentar a então profissão futebolista com contratos de trabalho fixos e, o mais importante, contribuir para uma mudança significativa nesta relação de trabalho.

Se antes desta lei os clubes eram responsáveis integrais pelos contratos dos atletas e os colocava submetidos ao “passe” – o instrumento jurídico além do contrato de trabalho –, agora o papel do agente-empresário aparece com mais força: os jogadores podiam deixar, em termos contratuais, os clubes sem a permissão dos mesmos. Logo, os agentes, em muitos casos cuidando de mais de uma “carreira”, podem enriquecer mais com a venda do passe dos jogadores para outros clubes, forçando, inclusive, a diminuição do preço do passe para manter a rotatividade do “comércio”.

Além da redução, esta situação obriga a maioria dos times do Brasil, bem como a do mundo futebolístico, a não mais investir nas categorias de base como futuro do próprio time e sim para transferi-los ao “mercado”, visto a sua alta lucratividade. Os jogadores passam de posse dos clubes para mercadorias dos empresários-agentes. Basta checar o “mercado da bola”: o Brasil até hoje é um verdadeiro parque de diversões para empresários e clubes ricos da Europa e da China, nos últimos anos, visto a incapacidade de competição da elite do futebol brasileiro com estes.

Portanto, se de um lado a profissionalização iniciou um ‘aburguesamento’ do futebol no tocante às relações sociais, de outro fez com que parte da população encontrasse neste esporte um meio de sobrevivência material e ainda de manifestação e realização emocional e cultural, enquanto a outra parte, também alienada, passa a consumi-lo apenas como entretenimento. 

O futebol, nestes moldes de organização – clube-empresa ou associação desvirtuada de seu objetivo –, é retirado do povo enquanto realização dele próprio é devolvido como objeto de consumo e puro entretenimento.

III – Contradições históricas, intrínsecas e insolúveis

Devido ao processo histórico demonstrado, o futebol, tal como a sociedade, apresenta desigualdades latentes, impossíveis de serem resolvidas nos moldes da gestão atual do esporte. Estas contradições passam, em primeiro lugar, pelas consequências da profissionalização sobre os atletas. Ser jogador de futebol profissional no nosso país não é nada fácil, ao contrário do consenso midiático, que diz que o amor ao dinheiro substituiu o amor à camisa:

a) Atualmente, menos de 12 mil atletas estão registrados com contratos ativos em seus respectivos clubes; a maioria deles estão no sudeste, sul e nordeste. Menos de 2% das jogadoras da modalidade feminina estão registradas e são historicamente deixadas de lado pelos nosso cartolas [1];

b) além disso, 45% dos atletas brasileiros recebem até um salário mínimo vigente, 42% têm vencimentos entre um e dois salários; uma diferença brutal comparando aos que ganham entre dois e vinte salários (9%), mais ainda aos que recebem acima dos vinte salários (4%) – estes dentro da “elite do futebol”, nas séries A e B

c) essa elite inclusive é a que disputa a totalidade da temporada futebolística. Num total de 655 clubes, 77 trabalharam a maior parte da temporada, enquanto 382 atuaram em cerca de 30% do ciclo anual de jogos; dentro ainda dos 655 times, mais ou menos 219 equipes tiveram um calendário inferior a dois meses, e por volta de 55, apenas um mês, tudo isto em 2018 [2];

d) entra ano e sai ano os campeonatos nacionais não possuem representantes de todas as unidades da federação: em 2019, por exemplo, foram apenas 16 dos 27 estados;

e) somado a tudo isto, há uma situação bem específica: a elite do nosso futebol é a que disputa mais partidas dentre todas as ligas do planeta;

f) por fim, os 655 times que disputam competições profissionais (todas as divisões de estaduais e nacionais) estão distribuídos por apenas 422 dos 5.570 municípios brasileiros [2]. Portanto, cerca de 100 milhões de pessoas – aproximadamente metade da população do país – vivem em cidades sem nenhum futebol oficial, além daquele praticado de forma recreativa, como manifestação popular cultural.

Somado a isso, o futebol como balcão de negócios causa um sério endividamento dos clubes de grande, médio e pequeno porte financeiro. A grande mídia, por sua vez, defende com unhas e dentes o projeto de clube-empresa, em síntese, para sanar as dívidas imensas dos clubes – da elite, é claro – os transformando em empresas para “atrair investimentos” e criando projetos de renegociação de dívidas, semelhantes ao PROFUT criado por Dilma Roussef em 2015. Além disso, restabelece o contratualismo entre empregador e empregado, abalado com a ambição pelo dinheiro.

De lá para cá, o clube-empresa ainda não vingou o esperado pela grande mídia. Existem hoje aproximadamente 20 clubes deste tipo no Brasil. Visto isto, desde 2020 tramita no Congresso Nacional um projeto de lei que dê ainda mais dispositivos legais para a consolidação definitiva do projeto, uma vez que a Lei Pelé sofreu inúmeras alterações no decorrer do tempo por obrigar, a princípio, a transformação dos clubes em empresas.

Longe de nos prendermos a críticas “moralistas” ou “populistas” em relação ao clube-empresa, nossa análise se prende a objetividade da coisa. Com isso, não é a “má gestão” a culpada pelas dívidas, e sim qualquer gestão. Os empresários – patrocinadores, fornecedores e agentes –, verdadeiros donos dos clubes, forçam os gastos altíssimos e não se responsabilizam por isto, nem mesmo os mandatários. Os clubes, por sua vez, não cumprem obrigações fiscais e “resolvem” os déficits modernizando o esporte, ou seja, alienando ainda mais o futebol, tornando-o inacessível às massas torcedoras.

Também há a questão dos calotes financeiros. Em 2020, por exemplo, as dívidas de mais de R$ 8 bi são divididas entre ações trabalhistas, pendências com o Estado brasileiro e bancos, e a elite do futebol só obedece o terceiro credor de modo geral visto os juros altos. Logo, sempre força o governo a aceitar a sonegação e o calote das dívidas; o Estado brasileiro, como bom “samaritano”, aceita passivamente de modo a “preservar o futebol”, isto é, seu potencial hoje lucrativo para as classes dominantes.

Mesmo que os clubes-empresas não sejam nem de perto maioria no Brasil, isto não significa que o futebol ainda pertence ao povo trabalhador. Não é necessário transformar radicalmente a essência de um clube para lucrar em cima do mesmo. Os clubes com maiores receitas, inseridos na elite do futebol, não são empresas, mas tem um capital fortemente injetado de Crefisa, Hyperapharma, BS2, MRV Engenharia, MarjoSports, de bancos como BMG, Banrisul, Caixa, dentre outros – isto sem falar dos fornecedores de materiais esportivos como Nike, Puma, Adidas, etc. Em constante competição, esta elite precisa de mais capital para alavancar seus clubes com contratações financeiramente poderosas.

Ou seja, empresários com bolsos mais cheios, clubes na pindaíba, o grosso dos atletas sendo tratados como a minoria.

Tal contexto só ajuda a reproduzir as desigualdades entre os clubes: esta elite, uma vez incrustada no topo, fica lá, dita os rumos do calendário e das competições, sempre de acordo com o que as grandes emissoras de televisão e de rádio desejam.

Deste modo, não há possibilidade alguma de resolver os problemas da alienação do esporte do povo dentro do capitalismo. Fora dele, há.

IV – Por um futebol que volte a ser do povo

Há exemplos de clubes-empresas que faliram pelo endividamento, num percurso semelhante ao ciclo das crises capitalistas em alguns aspectos: não alcançam objetivos mesmo com alto financiamento, atrasam salários, elitizam o próprio consumo e quebram, como Figueirense e União São João. Porém, o atraso de salários atinge não só clubes-empresas, como também os associativos desvirtuados de seu propósito.

Além disso, há uma resistência popular contra este processo de mercantilização absoluta, embora pareça pequena, dentro da elite [5] – times como Cruzeiro, Vitória, Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Internacional – e fora dela.

Esta resistência vai desde à contestação de preços de ingressos ao lucro expressivo do empresariado e aos déficits dos clubes. Numa palavra, à alienação completa em si.

As arenas herdadas da Copa do Mundo demandam preços de ingressos e planos de sócio torcedor mais caros e representam um completo descaso de entidades como CBF e Fifa para com o restante dos clubes brasileiros sem a mesma estrutura [5]; também representam um aceleramento na alienação do futebol, moldando o perfil de quem pode consumi-lo ao vivo. O velho Estado, aliás, oprimiu fortemente os protestos populares contra as consequências da realização do evento.

Frente a este cenário, nós defendemos: não ao clube-empresa; não à mamata de cartolas e empresários através dos jogadores; não à cristalização da elite do futebol em detrimento da maioria dos times e não à formação de jogadores destinada à sua venda na Europa e na China!

Quando dissermos “não ao futebol moderno”, precisamos ter em mente o que isto significa: basta ao ‘aburguesamento’ do futebol, ao jornalismo esportivo decadente e aos rios de dinheiro que circulam no mercado da bola.

Os clubes precisam voltar a ser o que eram antes, mas de forma melhorada, buscando nas suas raízes a sua história: associações sem fins lucrativos, onde todos possam participar, manter e decidir os rumos do time numa sociedade isenta da exploração do trabalho assalariado e do trabalho doméstico. Logo, com plenas condições de existência humana.

Devemos nos apoiar nessas revoltas e sentimentos orgânicos do povo para guiar o justo caminho da transformação. Isto só será possível mediante um processo revolucionário que expulse o imperialismo – manifestado até no futebol, como vimos – e caminhe em direção ao socialismo!

Por um futebol democrático e popular!

[1] Impacto do futebol brasileiro. CONSULTORIA ERNST YOUNG para a Confederação Brasileira de Futebol. Fevereiro 2019
[2] O Calendário do Futebol Brasileiro – Parte 1: A Utilização do Calendário em 2019. PLURI CONSULTORIA. Abril 2020.
[3] OURIQUES, Nilson – O gol contra do rei: a Lei Pelé e suas consequências.
[4] FRANZINI, Fábio – Corações na ponta da chuteira: capítulos iniciais da história do futebol brasileiro (1919-1938). Rio de Janeiro, DP&A, 2003.
[5] SANTOS, Irlan Simões – Mercantilização do futebol e movimentos de resistência dos torcedores: histórico, abordagens e experiências brasileiras. UERJ, 2016