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Brasil - Política - 25 de maio de 2020

A ascensão fascista e seus ‘adversários’

O vídeo que seria a prova da interferência e, consequente crime, do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal foi enfim divulgado. A reunião ministerial foi uma explosão de informações, reações das mais variadas e o desenho fiel do que é o ‘time’ do presidente liberal-fascista: um bando de mafiosos ineptos cujo único dom é saber tomar parte na festa do ataque em curso do velho Estado.

A famigerada reunião

As cenas que mais chamaram atenção, como de costume, foram dos comportamentos exaltados dos diversos ministros durante a reunião com direito a palavrões e xingamentos, que faz o pior boteco do centro parecer um ambiente família. Embora a forma tenha chamado muita atenção, focaremos no conteúdo, afinal muito dali provavelmente seja um tanto de atuação: um artifício daqueles que precisam continuar no cargo e fazer carreira na onda bolsonarista – onde Regina Duarte tentou surfar e se afogou pouco antes da sua morte política, em entrevista lamentável à CNN.

Na reunião, vimos a cínica fala do Ricardo Salles, do Meio Ambiente, com seus planos perversos para a destruição da floresta amazônica e dos povos nativos, quilombolas e camponeses, através das “desregulamentações da burocracia”. Soma-se a face, nunca dissimulada, do cientista do Pinochet 2.0 no Brasil, o ministro Paulo Guedes e suas intenções de passar suas reformas criminosas se aproveitando da vulnerabilidade do povo.

Não menos patéticos foram Damares e sua atuação histérica de neopentecostal vislumbrada com o fascismo, Weintraub mostrando todo seu ressentimento, numa postura quase infantil de ‘ódio’ pelos indígenas, ciganos e pelo Partido Comunista Chinês (parte que teve que ser cortada por “razões judiciais de relações internacionais”).

Moro vs Bolsonaro

No entanto, parece que a grande jogada de Moro, o queridinho da Rede Globo, provavelmente não terá o efeito esperado de cara: a desmoralização de Bolsonaro e sua derrubada mais rápida. A partir de agora, a Emissora parceira do latifúndio certamente tentará emplacar – com apoio da opinião pública e dos seus aliados – a narrativa de que ali se viu, uma evidência da sua interferência na Polícia Federal, minimizando o fato de que algo mais grave se passava ali em paralelo: o comentário sobre o decreto que permitiu o fim do rastreamento de munições para quem têm porte de arma, somado às suas intenções de tomada do Poder aos moldes fascistas, convocando sua base pelos meios armados para acabar com toda essa sacanagem (sic) que paira sobre sua família.

A verdade é que no vídeo vimos motivos subjetivos para uma acusação – é claro que a intenção do velho político Bolsonaro foi proteger a sua família com os velhos mecanismos da velha política brasileira, mas a falta de clareza de uma ‘prova cabal’, cuja acusação colocou em xeque até mesmo a segurança jurídica do próprio Moro, tornará o desenrolar dessa novela muito mais complexo e caótico, sujeito aos jogos de interesses do Estado brasileiro e seu obscuro sistema judiciário.

Alguns avaliam que Bolsonaro, pelo fato anteriormente citado, saiu ‘vitorioso’ ou, pelo menos, ‘mais forte’ desse episódio. No entanto, o que se viu foi uma figura acuada em meio a uma Máquina burocrática que tem poder pra dificultar até mesmo a vida de um caudilho apoiado pela sua base de fascistas de novo tipo (para tomar emprestado a expressão de um camarada), vociferando contra os muros invisíveis que o impede de botar em prática seus delírios liberais e repressores.

Empate circunstancial

A força do Bolsonaro – seu apoio nas polícias, em setores das Forças Armadas, uma base pequena da população, porém à esta altura organizada e capaz de ditar pautas (ao contrário de uma certa ‘esquerda’), além das milicias – permanece igual e convicta, após a divulgação da “postura obstinada” do seu grande Messias.

Moro, por sua vez, segue protegido pela Globo e servindo como peça mais confiável do seus chefes ianques, enquanto o Bolsonaro e seu clã são apenas vistos como cachorros abanando o rabo e tentando chamar atenção do dono; tentando provar, mas falhando miseravelmente, sua capacidade de ser o gestor da vez. No entanto, será curioso ver como o ex-juiz, formado pelo Pentágono, se livrará desse processo que agora é uma roleta russa e estourará para um dos dois lados.

De modo diverso, a opinião de democratas e progressistas que já tinham consciência da sua ingerência se fortalece ou até cresce, além de que possa decidir de vez a posição de alguns centristas. No entanto, a organização e mobilização da esquerda social-democrata e oportunista que os representa anda à passos tão curtos que não oferece resistência objetiva. Ou seja, em termos quantitativos o quadro permanece o mesmo, pelo menos por enquanto.

O aparelhamento fascista do Estado

O desespero de Bolsonaro visando interesses pessoais reflete o modo como as classes dominantes utilizam o Estado e é um termômetro para medir como esse mesmo Estado agirá com a sociedade, assim como na época da Ditadura Militar, em que as corrupções e crimes de gente ligada aos milicos fascistas eram cobertas.

Sua histeria em razão da falta de poder da vigilância de agências como a ABIN, evidencia tanto sua insatisfação com a fascistização não tão acelerada como ele gostaria – a grande burguesia brasileira de modo idêntico nunca está satisfeita com o ritmo do desmanche do Estado – como seus planos futuros para a espionagem da sociedade, subscrito igualmente pelas FFAA, dado o silêncio conivente dos generais ali presentes.

Em suma, Bolsonaro mantém sua força política e desenvolve o preparo das condições objetivas (as armas) para suas pretensões de Poder, enquanto se enrola cada vez mais no único sistema de freios que ainda funciona no Brasil – os esquemas de corrupção e as amarras que eles envolvem nos próprios representantes da burguesia nas instituições do capitalismo burocrático. No entanto, o afrouxamento das leis sobre rastreamento de munições, favorece as execuções por paramilitares, o que pode ser muito útil na sua empreitada pelo Poder.

Do ponto de vista do imperialismo, a dialética da ‘democracia’ no capitalismo semicolonial segue no seu limite: a disputa intestina de uma direita imperialista ‘democrática’ contra outra direita imperialista e fascistóide, enquanto uma crise social se aquece prestes a explodir.

Resultado do jogo até o momento

Aos EUA, todas as cartas podem ser úteis, além de que se pode manobrar pelos caminhos que apareçam e sejam mais viáveis durante o curso das coisas para que o Brasil não saia debaixo de sua asa. A Pandemia provoca certa fragilidade ao imperialismo, mas um rato sempre é mais agressivo quando acuado.

Para as classes dominantes daqui, em todas suas contradições, se oferece uma via mais radicalizada, ilustrada pela lástima da reunião ministerial, e não tão interessante – na expressão passada pelas declarações ‘comedidas’ de parte do Alto Comando das FFAA; enquanto a outra, pela sua manutenção do status quo, continuação da narrativa do “combate à corrupção” e consequente roupagem de preservação das “instituições democráticas” do Estado deteriorado, é a que parece ser a síntese do momento.

Cabe também apenas lamentar que os social-democratas, revisionistas e reformistas continuem a chorar no leito da democracia em estado terminal, enquanto o povo espera organização rápida em um momento de extrema vulnerabilidade. Principalmente, porque, todo o conhecimento acadêmico do ‘balanço histórico’ do século XX deveria ao menos tornar lugar comum a lição: quando fascismo se avizinha, não são palavras à favor da democracia em abstrato e do Estado de Direito que faz parar sua marcha sádica.

Atualizado em 27-05-20, 16:26.