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Mundo - Política - 3 semanas ago

A “Real” Mudança de Obama

O ex-presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, é um daqueles casos de sucesso de manipulação da opinião pública. Essa lista tem nomes de peso como Gandhi e Dalai Lama, mas a História, além de professora e juíza que absolve os autênticos revolucionários, é também coveira dos traidores de classe. Em um momento onde qualquer “menos pior” é visto com uma aura luminosa é necessário rememorar eventos inconvenientes.

O debate surge em ocasião de mais um assassinato racista cometido pela polícia norte-americana, desta vez com um homem chamado George Floyd – já comentado aqui na Revista – que provocou uma legítima explosão de manifestações populares regadas de violência espontânea. A situação obrigou até o prefeito de Nova Iorque a realizar pronunciamento (outro Democrata bem intencionado!), rechaçando o ato dos policiais e então acabando por expulsá-los da corporação.

Não será tema aqui, tratar da medida do prefeito ianque, pouco efetiva quanto ao combate do racismo deste Estado terrorista, porém deixar nu o democratismo fajuto que, a exemplo do prefeito citado, o ex-presidente vencedor do Nobel da Paz também compartilha, provocando suspiros no Ocidente.

Dessa vez, esta voz da razão publicou um artigo no seu Medium, onde lamenta a tragédia e, com a autoridade moral que lhe foi concedida, condena os atos de violência dos protestos e indica os caminhos para a ‘real’ mudança. Infelizmente o texto ainda não têm tradução integral, mas citaremos partes dele aqui, além das já divulgadas no monopólio de mídia. Assim Obama vê os casos de violência:

“…a pequena minoria de pessoas que usaram do recurso da violência em várias formas, seja de uma raiva genuína ou de mero oportunismo, estão colocando pessoas inocentes em risco”

Na sua solução, as “aspirações devem ser traduzidas em leis específicas e práticas institucionais”. Não cabe aqui resistir de modo concreto à uma violência de Estado cruel e igualmente concreta. Não faltou espaço para o sentimentalismo, marca d’água da comunicação midiática que colocou Barack no pedestal onde está hoje:

“Eu quero que vocês saibam que vocês importam. Eu quero que vocês saibam que suas vidas importam, que seus sonhos importam”

Curiosamente, o mesmo Obama, agora numa roupagem liberal e democrata, quando era presidente, ordenava (ou pelo menos admitia) repressões violentas contra manifestações.

“Boas novas”

Obama, como todo bom demagogo e oportunista, vê soluções somente dentro desse sistema contraditório e genocida que é a democracia liberal estadunidense. Basta boa vontade e boas ideias.

Reclama da baixa porcentagem de votos e interesse pelas eleições locais que seriam uma das causas do estado de coisas e vê na solução disto um dos caminhos para a mudança. Entretanto, aí está estruturado um sistema que inclui para excluir e esses são seus efeitos e não as causas. A abstenção eleitoral é um indicativo de que essa democracia abstrata de que ele – como os democratas aqui – fala, não encontra nenhuma identificação nas massas.

Somos levados a concluir que a “real mudança” depende de saber “votar corretamente” em candidatos que farão as reformas necessárias. Esse discurso ideológico é tão atrasado que, tal como uma poça de água parada, com o passar do tempo só é possível ver lodo. Segundo ele, “os oficiais eleitos que mais importam, quanto a reforma dos departamentos de polícia e sistema de justiça criminal, trabalham a nível Estadual e local”. Apesar do racismo ser “estrutural”, temos aqui uma solução que nem sequer toca nas estruturas, mas certamente será lenta e gradual, como um bom democrata deseja, pouco importando se o povo será massacrado constantemente nesse processo. Uma ruptura pra já ou pra logo é impensável, afinal não é assim que se resolvem os problemas, segundo nosso Nobel da Paz.

reprodução:twitter

Em algum ponto, conduzidos pela inteligência de Obama, acabamos perdidos em uma situação complexa (cada caso exige ‘uma política pública diferente’) com soluções aparentemente simples (basta ‘elegerem bons representantes’ e formularem ‘políticas efetivas’). Em momento nenhum, porém, se debate ou ao menos se evoca, o poder financeiro e o histórico dos EUA de reprimirem e assassinarem combatentes do povo, como fizeram com os Panteras Negras.

A importância desta “mudança real” – isto é, que tudo mude para que continue igual – é tanta para os “democratas” de ocasião, que até o genocida mais inveterado como George W. Bush se pronunciou de forma bem parecida: 

“Essa tragédia — que faz parte de uma longa lista de tragédias semelhantes — levanta uma questão que deveria ter sido levantada antes sobre como acabar com o racismo estrutural em nossa sociedade”, disse Bush em comunicado.

Mas não é absurdo ver o mesmo tipo de discurso sair pela boca do primeiro presidente negro dos EUA, como poderia muito também sair da primeira presidente mulher do Brasil. Ou seja, todos esses efetivadores de uma ‘representatividade’ idealizada só conseguem falar em termos igualmente idealistas: nada que o povo realmente almeja, mas que aplaude, com a forcinha de operação ideológica sutil e inteligente de manipulação.

O termo racismo estrutural, demasiadamente abstrato, gasto pelos bastiões do reformismo, não por acaso é também usado no Brasil por uma esquerda que evoca para si um passado combativo, de liderança à revoltas populares como as que ocorrem agora nos EUA, isto é, quando merecia o nome de Esquerda.

Ocorre é que vivemos uma Era onde os “democratas” e todo seu seguimento de intelectuais são incapazes de ditar os rumos e pautas das revoltas populares, só podendo, como diria Mao Tsé-tung, correr atrás das massas gesticulando, com incrível incapacidade de entender o movimento real. Lênin bem ensinou: em matéria de ideologia, não há vácuo e, por isso mesmo surge, cada vez com mais força, uma “nova” direita, ganhando eleições, mas também ocupando as ruas.

Democratas lá,“democratas” aqui

No Brasil não é difícil encontrar por aí quem nutra grande admiração pela família Obama, com destaque para a sua esposa Michelle. Conseguiu, apesar dos conhecidos casos de espionagem contra o Brasil, ser admirado aqui como um homem simpático, dedicado e democrata. 

Essa semelhança do seu discurso e o da ‘esquerda’ brasileira, pode até mesmo indicar a influência, no próprio modo de fazer política, dos ianques no nosso país. Temos aí, uma das causas do nosso atraso em relação às massas aqui, neste país extremamente desigual, Servo, em que o mesmo fenômeno se reflete na nação imperialista, que é o Senhor.

Ele não concorda com “aqueles que dizem que apenas ações diretas e protestos podem trazer a mudança” e que eleições “são uma perda de tempo”. Esse bom homem quer apenas “canalizar a raiva justificada em ação pacífica, sustentável e efetiva”. Não queremos gastar as ironias, mas, é preciso lembrar que aqui no Brasil essa pregação é ouvida desde liberal-democratas até partidos ditos socialistas.

A realidade mostra que, tanto na América do Norte, quanto nos trópicos, temos de um lado: uma ‘esquerda’ fragmentada em pautas de identidade e ‘lutas por direitos’; de outro, uma direita fascista, como urubus, espreitando essa falência e recauchutando suas velhas táticas para ganhar as ruas; e por fim, no meio disso tudo, um povo ávido por mudanças (‘estruturais’) e, já tão farto do estado de coisas, que recorre à quaisquer meios necessários para exteriorizar sua revolta.

Como o tempo passa e é costume humano se esquecer de algumas coisas, vamos lembrar o que fez esse grande democrata nos tempos que era o gerente da maior máquina de guerra do Imperialismo.

“A prática é o critério da verdade”

Sob os feitos do homem que condena a violência em protestos, estão a ocupação constante dos EUA no Oriente Médio: expandindo a invasão colonial no Afeganistão e apoiando os europeus no assassinato do presidente Khadafi na Líbia, além de ocupações militares em Paquistão, Iêmen, Somália, etc. – tudo em nome do “combate ao ‘terrorismo’”.

Ironia conhecida para os analistas internacionais é a de que o ex-presidente, que ganhou um prêmio da paz, foi o único a passar seus dois mandatos inteiros em guerra, fato este que nem mesmo Franklin D. Roosevelt conseguiu.

Certamente os sírios, que tiveram sua terra devastada por uma guerra idealizada por Washington na administração Obama gostariam que essa declaração fosse verdade. As crianças e mulheres palestinas, que vivem sob o jugo do medo perpetrado pelo governo fascista de Israel – apoiado pelos ianques desde sempre, com certeza não sentem senão aversão à esse sentimentalismo barato.

Para o Obama de 2009, à altura do discurso no Nobel da Paz, a violência não era senão uma parte indissociável da vida. O que o tornava, num pensamento metafísico e materialista vulgar, uma mera engrenagem do sistema que, no entanto, lutava por reformá-lo. Essa compreensão, porém, não foi estendida às massas rebeladas pelo sistema a que ele se colocou de bom grado se tornar o maior representante.

Nos últimos anos de seu governo, os EUA lançaram quase 30 mil bombas sobre as cabeças dos povos do chamado Oriente Médio. Fatos como esse, deveriam ao menos constranger moralmente alguém que usa de tal sentimentalismo para se referir à meios violentos de pessoas comuns que nem se comparam ao Poder que esse cidadão tinha quando ocupava a Casa Branca.

Conclusão

Sendo claro, essa transformação de Obama num arauto da razão e boa vontade, nada mais é que a evidência de uma tática do imperialismo que deu certo, pelo menos nesse caso: manipulação das emoções, operações midiáticas melodramáticas e uma bela exploração de pautas (como a da representatividade) que são caras à esquerda reformista e oportunista.

bando de dados A Nova Democracia

Por outro lado, todo esse conjunto de condições cria terreno para uma outra alternativa. Se a condição desses “democratas” que citamos cria essa distância entre revoltas, boicotes eleitorais espontâneos e preconceitos democrático-burgueses; abre-se um horizonte para que aqueles que estão politicamente alinhados e lutam pelos interesses e ações dessas massas censuradas por Obama construam esse ‘fio condutor’ que será a parceria entre vanguarda e povo, entre revolta consciente e inconsciente, que, finalmente, serão as condições objetivas para – de fato – uma real mudança.