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Brasil - Mundo - Política - 29 de março de 2020

Conectado ao Google, conectado ao Governo.

Dia 27 de março de 2020, o governo anuncia que usará dados de celulares para monitorar aglomerações, por causa do COVID-19. Apesar das declarações de que a privacidade da população não vai ser violada, ficamos com algumas questões: o governo tem acesso aos nossos dados privados? Ele pode usá-los sempre que quiser? Como se proteger?

Em 2010, a rapper M.I.A. estreava seu álbum MAYA, com a música de abertura chamada “THE MESSAGE”, cuja letra, numa tradução literal, é:

Conectado ao Google
Conectado ao governo
Conectado ao Google
Conectado ao governo
Cabeça conectada à vértebra cervical
Vértebra cervical conectada aos ossos do braço
Ossos do braço conectados aos ossos da mão
Ossos da mão conectados à internet
Conectado ao Google
Conectado ao governo
Conectado ao Google
Conectado ao governo
Cabeça conectada aos fones de ouvido
Fones de ouvido conectados ao iPhone
iPhone conectado à internet
​Conectado ao Google
Conectado ao governo
(…)

Essa música de abertura ao álbum foi recebida pela crítica de forma implacável. Sites como Pop Matters e Urb chamaram-na de “paranóica” e “conspiracionista”. Pitchfork foi mais além e afirmou:

The Message é a pior coisa em um álbum de experimentos falhos – uma demo ruim com um rap simplista e paranóico que é tão efetivo retoricamente quanto alguém num dormitório falando que a CIA inventou o AIDS. Não é a melhor ideia começar seu álbum carregado politicamente com uma música que destrói a possibilidade de tratar de um assunto sério sobre privacidade com qualquer nível de profundidade e nuance.

M.I.A. e suas obras:

A Pitchfork já havia se envolvido em uma outra polêmica com a M.I.A., por fazer parte do grupo de meios de publicações musicais que atribuíram o sucesso dos primeiros dois álbuns da rapper ao produtor Diplo, algo que ela rebateria em uma entrevista em 2007, reproduzida abaixo:

Pitchfork: conte-me um pouco sobre Kala. Eu acabei de ouvir pela primeira vez hoje e…
M.I.A.: Diplo não o fez.
Pitchfork: Uh, o quê?
M.I.A.: Ele nunca fez Arular, mas vocês continuam escrevendo isso.
Pitchfork: “Ele” sendo Diplo?
M.I.A.: Você não está me ouvindo mesmo, está?
Pitchfork: Estou tentando. É um pouco difícil ouvir você.
M.I.A.: Esqueça o que eu disse. [Pausa] O que você acha que eu disse?
Pitchfork: Eu ouvi você dizer algo como “ele não fez Arular e ele também não fez esse disco”. Me pergunto a quem você está se referindo, apesar de eu poder adivinhar.
M.I.A.: Ontem eu li umas cinco revistas no avião – era um vôo de nove horas – e três de cinco revistas diziam “Diplo: o mentor por trás das políticas de M.I.A.!” E eu estava me perguntando, isso vem da Pitchfork? Porque eu acho isso realmente maluco.
Pitchfork: Bem, é difícil dizer onde isso se originou. Nós certamente fizemos referência a Diplo tendo uma parte nas suas gravações, mas parece que todos fazem isso.
M.I.A.: Se você ler os créditos, ele me enviou um loop para “Bucky Done Gun”, e eu fiz uma música em Londres, e isso se tornou “Bucky Done Gun”. Mas essa foi a única música em que ele esteve envolvido em Arular. Então todo tempo eu tive problemas de imigração e não consegui entrar no país, o que eu sou ou o que eu faço tem uma vida própria, e está se tornando menos e menos relacionado a mim. E eu só acho meio insultante que eu não posso ter ideias próprias porque sou uma mulher, ou que as pessoas de países não desenvolvidos não podem ter ideias próprias ao menos que sejam apoiadas por alguém que é loiro e de olhos azuis. Na primeira vez está tudo bem, na segunda vez também, mas após tipo três, quatro ou cinco vezes, talvez seja um assunto que nós precisamos tratar, talvez seja algo importante, sabe.

Vemos então que a indústria musical e seus veículos de divulgação e avaliação nunca admitiram que M.I.A., uma rapper tamil refugiada do Sri Lanka, obtivesse autonomia musical para expor suas críticas ao imperialismo selvagem.

Diplo, inclusive, foi um dos que tentaram impedir que M.I.A. expusesse suas críticas certeiras ao imperialismo e suas guerras de rapina, tentando a intimidar para “não envolver política nas suas obras”, e depois acusando-a de “glamourizar o terrorismo” em músicas como Paper Planes, uma música que obteve amplo sucesso mundial ao usar um rap afiado e sarcástico para expor como os grandes senhores de guerra imperialistas enxergam refugiados de países de terceiro mundo: pessoas que vem para roubar, praticar terrorismo e ameaçar a segurança dos países “desenvolvidos” (imperialistas).

Mas quem é M.I.A.?
Nascida Maya Arulpragasam, ela cresceu em um vila ao norte no Sri Lanka, parte da minoria tamil, uma minoria étnica que sofre genocídio ao reivindicar sua autodeterminação desde que o território se tornou independente da Inglaterra em 1948 e a maioria, os cingaleses, passaram a oprimir os tamil. Seu pai, Arul Pragasam, foi o fundador de um grupo estudantil revolucionário que eventualmente se fundiu nos Tigres do Tamil. Ele treinou no Líbano, na década de 70, com a OLP (organização para a libertação da palestina). Nos anos 80, o conflito se agravou, com revoltas anti-tamil matando centenas, enquanto os Tigres do Tamil se tornaram notórios por seus bombardeios suicidas e recrutamento de crianças. Todas essas experiências seriam fonte para a criação da maior parte das músicas de M.I.A., cujo primeiro álbum, Arular, deriva do nome de seu pai (Arul).

Em Arular, ela já mostrava uma visão política bastante consciente, denunciando o sionismo em músicas como “Sunshowers”, onde afirma “like PLO I don’t surrendo!” (como a OLP eu não me rendo!), ou em Bucky Done Gun, onde ela exclama palavras de ordem como “I’ll fight you just to get peace” (eu lutarei com você para ter paz), que sintetizam a noção da ciência do proletariado sobre a questão da guerra, além da própria sonoridade proveniente da música funk brasileira, que fez da música um marco internacionalista de terceiro mundo, criticando a violência contra as populações marginalizadas, em fortes trechos como “I’m armed and I’m equal, more fun for the people!” (estou armada e sou igual, mais diversão para o povo!).

A verdade é que em todo o Arular vemos fortes críticas ao imperialismo, palavras de ordem revolucionárias e internacionalistas de terceiro mundo, destacando-se além das acima a música Pull Up The People. A rapper aprofundaria o caráter internacionalista de terceiro mundo de suas músicas mais adiante em “World Town” e “MATANGI”, além do épico em defesa dos refugiados que acompanhou toda sua carreira e que foi mais aprofundado no álbum AIM, com as músicas “Borders”, “Visa” e “Foreign Friend”.

Vale lembrar que M.I.A., apesar de seu início de carreira subversivo e de caráter revolucionário, acabou eventualmente caindo em contradições próprias da indústria musical, e que, ao decorrer dos anos, ela esteve envolvida em certas aparições controversas, como a propaganda pra campanha Rewear It, da grande multinacional H&M e que, apesar de sua coleção de músicas de caráter progressista e de críticas certeiras que segue fazendo ao sistema imperialista, como na questão dos refugiados ou ao defender Assange, ela já perdeu muito de seu caráter popular e rebelde ao longo de sua submersão na indústria musical.

Mas, retornando à música THE MESSAGE… vale lembrar que o que a Pitchfork e outras revistas de crítica musical se esqueceram de apontar, e que a M.I.A. certamente sabia ao compor essa música, é que essa questão já era bem explícita, especialmente nos EUA.
Desde pelo menos 2001, o governo dos EUA, com a assistência de grandes veículos de telecomunicações, incluindo a AT&T, se ocupou de uma vigilância maciça e ilegal das comunicações domésticas e dos registros de comunicações de milhões de estadunidenses comuns. Isso foi primeiramente reportado na imprensa e revelado ao público no final de 2005.

A História da Espionagem de Informações da NSA (Agência de Segurança Nacional) desde 2005:

Novas reportagens em dezembro de 2005 revelaram pela primeira vez que a Agência de Segurança Nacional (NSA) esteve interceptando chamadas telefônicas e comunicações virtuais de estadunidenses. Essas reportagens, combinadas com um artigo do USA Today em maio de 2006 e declarações de vários membros do Congresso, revelaram que a NSA também estava recebendo por atacado cópias de registros telefônicos e de outras comunicações de estadunidenses. Todas essas atividades de vigilância estão em violação às garantias de privacidade estabelecidas pelo Congresso e pela Constituição dos EUA.
No começo de 2006, a Fundação Fronteira Eletrônica (EFF) obteve evidência através de denúncia do antigo técnico da AT&T, Mark Klein, mostrando que a AT&T estava cooperando com a vigilância ilegal. Os documentos incontestáveis mostram que a AT&T instalou um divisor de fibra óptica em suas instalações na Rua Folsom, 611, em São Francisco que faz cópias de todas as navegações na web e outros tráfegos na Internet de emails de clientes da AT&T e fornece essas cópias à NSA. Essas cópias contêm tanto atividades virtuais domésticas quanto internacionais de clientes da AT&T.
Em 2013, Edward Snowden, ex-técnico da CIA, revelaria de vez o que a M.I.A. foi ridicularizada por apontar em 2010.

“O ex-técnico da CIA, Edward Snowden, de 29 anos, é acusado de espionagem por vazar informações sigilosas de segurança dos Estados Unidos e revelar em detalhes alguns dos programas de vigilância que o país usa para espionar a população americana – utilizando servidores de empresas como Google, Apple e Facebook – e vários países da Europa e da América Latina, entre eles o Brasil, inclusive fazendo o monitoramento de conversas da presidente Dilma Rousseff com seus principais assessores.” – Fonte: G1, monopólio da imprensa brasileira.

M.I.A., após as informações vazadas por Edward Snowden, publicou no seu blog Tumblr um compilado de críticas que ela sofreu pela música The Message, mostrando a todos o que a indústria musical hegemônica busca esconder.

Os documentos governamentais secretos, publicados na mídia em 2013, confirmam que a NSA obtém cópias completas de tudo que é transportado através da maioria das redes de fibra ópticas domésticas. Em junho de 2013, a mídia, liderada pelo Guardian e Washington Post, começou publicando uma série de artigos, junto com documentos governamentais completos, que confirmaram muito do que havia sido reportado em 2005 e 2006. As reportagens mostraram – e o governo depois admitiu – que o governo está coletando massivamente dados de telefones de todos os clientes dos EUA sob o disfarce do Ato Patriota. Além disso, as reportagens da mídia confirmam que o governo está coletando e analisando o conteúdo de comunicações de estrangeiros com pessoas de dentro dos Estados Unidos, assim como coletando muito mais, sem uma causa justificada provável. Finalmente, as reportagens da mídia confirmam a coleção “a montante” dos cabos de fibra óptica que o Sr. Klein revelou primeiramente em 2006.
Em 2017, a NSA adquiriu dados de mais de 534 milhões de chamadas de telefone e mensagens de texto. Inacreditável é que esse cálculo está acima do triplo da quantia coletada em 2015, quando a Lei da Liberdade dos EUA supostamente limitou o acesso da NSA a dados de companhias de comunicação.

O Facebook, o Google, a Apple, a Microsoft, entre outras companhias, fazem parte do registro de serviços virtuais que deram os arquivos de seus clientes para a NSA, através do programa PRISM. Os arquivos dados incluem emails, mensagens e documentos.
As “Operações de acesso adaptado” (TAO) são a unidade hacker da NSA, que garante que ela possa acessar os dispositivos que desejar.
No Brasil, na Alemanha e em outros países, a NSA arrombou as redes internas dos maiores provedores de telecomunicações, interceptando os dados que juntou e enfraquecendo a segurança de seus sistemas. Ela coleta cada email e ligação telefônica que consegue.
Com toda essa ligação entre os EUA e seus órgãos de espionagem voltados para a coleta de dados pessoais de comunicação virtual tanto dentro do país como fora dele, não é de se espantar que existam muitos interesses envolvidos.

A espionagem de dados no Brasil e seu uso como agente contrarrevolucionário preventivo:

Em 2013, após os levantes combativos da juventude que se iniciaram em Porto Alegre, lideranças do Bloco de Lutas têm sido alvo de perseguição da polícia, sob as mais absurdas justificativas e invenções. Matheus Gomes, uma das lideranças das manifestações de 2013 em Porto Alegre, teve materiais políticos e universitários confiscados, incluindo seu notebook. No Rio de Janeiro, a espionagem virtual se fez como método de condenação de forma mais específica, após a Lei Antiterrorismo de Dilma. O Estado fascista passa então a perseguir 23 jovens combativos de 2013, e também organizações como o Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR) e outras organizações que fizeram parte da Frente Independente Popular – FIP-RJ. Apesar da utilização dos métodos clássicos de espionagem e infiltração, os processos que seguiram com a prisão de Igor Mendes por sete meses e no mandato de prisão de Karlayne Moraes e Elisa Quadros não constataram nenhuma prova dos atos criminosos cometidos, e aí entra a Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática no comando do processo, baseando todas as acusações e justificando os mandatos em curtidas de páginas na internet, mensagens de texto, emails e mensagens do Facebook, todos privados.

Isso mostra que, além dos países imperialistas e seus programas de inteligência controlando os canais de telecomunicações e internet, para suas diversas atividades subversivas, na sua guerra de rapina pelo controle dos países oprimidos e neutralização de suas próprias populações trabalhadoras, os seus lacaios nos países semicoloniais e semifeudais também têm feito uso da espionagem virtual para detectar elementos subversivos e neutralizar qualquer foco de revolta popular que ameace a manutenção do Velho Estado.
O Movimento Estudantil Popular Revolucionário
publicou uma nota em 2016 sobre sua retirada da rede social Facebook, em um texto bastante esclarecedor, cujos seguintes parágrafos podem dar uma luz ao que está sendo discutido aqui:

“Frente à crescente rebelião dos povos no mundo inteiro, o imperialismo, com a besta-fera ianque sempre à frente, impulsiona a vigilância e o controle total sobre o mundo inteiro, como parte fundamental da militarização de toda a sociedade que lhe é traço distintivo. Tudo que trafega pela rede mundial de computadores é registrado, gravado e analisado pelas agências do imperialismo como a NSA, FBI, CIA (dos ianques) e congêneres de todas as potências imperialistas.
Vale ressaltar que a alegada independência das empresas e a defesa da privacidade dos seus usuários, tão alardeada em alguns casos, não passam de um embuste, pois que, toda vez que ao imperialismo acender a luz vermelha do perigo da revolução, ele puxará as cordas da rede dos dados acumulados para utilizá-los na repressão e manipulação. Sob o surrado discurso de luta contra o terrorismo, toda a população mundial tem seus dados, correspondências, informações e arquivos pessoais, dados de localização e mesmo de perfis psicológicos gravados pelas agências de inteligência. Passando por cima de todas as legislações, os dados de qualquer pessoa, independente se é investigada ou se cometeu qualquer delito, são interceptados e gravados, e podem ser usados a qualquer tempo pelo aparato repressivo.
(…)
Nada que não puder cair nas mãos do inimigo, hoje ou no futuro, deve circular pela rede. Mesmo criptografas, mensagens que não podem ser abertas hoje estão sendo gravadas e armazenadas e poderão ser violadas amanhã. Páginas de organizações revolucionárias devem ser acessadas de internet públicas, jamais de computadores pessoais.”

Resta dizer que com o aparato do Velho Estado brasileiro cada vez mais em deterioração, assumindo um caráter contrarrevolucionário preventivo fascista, com a Lei Antiterrorismo sendo “aprimorada”, certamente a censura e a espionagem aos dados de telecomunicações/virtuais estão sendo incrementadas para censurar e perseguir qualquer “elemento subversivo” que se volte contra o Velho Estado e suas instituições agonizantes. Não haverão apelos democráticos e de privacidade que poderão barrar o uso de dados pessoais para incriminar quem for acusado de “terrorismo”.
É hora de ouvir as palavras que M.I.A. usou em 2010, “conectado ao Google, conectado ao governo”, e as palavras do MEPR que se mostram cada dia mais certeiras. Todo cuidado nas redes virtuais e de telecomunicação é preciso. Vale lembrar, assim como o MEPR o fez em seu texto de 2016, que as redes sociais não são o espaço para construção de um movimento de massas, mas que, pelo contrário, são uma arma do imperialismo de propaganda, desinformação, degeneração e alienação, onde tudo é visto como mercadoria. Nesse processo de alienação, somos distanciados das massas, que não alcançamos pelas redes, mas sim nas ruas e no campo. Criamos bolhas onde discutimos um com os outros, os assuntos mais bizantinos, sem qualquer perspectiva de levar os conhecimentos à prática. Nos tornamos o que o Marx já denunciava: filósofos que se limitam a interpretar o mundo e não fazem nada para mudá-lo.
Ao mesmo tempo em que nos distanciamos das massas, de um lado, do outro estamos sempre perto das propagandas imperialistas e de sua espionagem em nossos dados, de forma que, mesmo se tentarmos aliar nossa atividade virtual com a prática, corremos o risco de usarem a primeira para nos condenar de “terroristas” pela segunda, como foi feito com os jovens de 2013. As palavras de ordem do MEPR são tão atuais hoje quanto o foram quando o texto foi publicado em 2016:

Denunciar amplamente o controle do imperialismo sobre a internet!

Abaixo o individualismo, egoísmo e consumismo.

Abaixo o Facebook e as “redes sociais”: instrumento de disseminação da ideologia e cultura imperialistas!

Liberdade para os presos políticos democratas e revolucionários de todo o mundo!

Por uma cultura de Nova Democracia, científica e de massas para toda a juventude!

Mobilizar audazmente as massas para transformar radicalmente nosso País e o mundo!