Não é de hoje que trabalhadores italianos vêm organizando greves e protestos contra a situação exploratória a qual estão submetidos nas fábricas e postos de trabalho – a despeito do oportunismo e traição das centrais sindicais, e suas promíscuas ‘negociações’ com o governo reacionário. Ao longo de todo o ano de 2019, diversas outras greves estouraram no país, sendo uma das mais notáveis a greve geral dos transportes em Outubro. O que evidencia, portanto, que esta crise da produção não se iniciou com a pandemia de Coronavírus, mas apenas se agravou com a mesma.

Conforme o número de infectados pelo vírus começou a aumentar, também aumentava a preocupação e mobilização dos trabalhadores, a fim de se protegerem do perigo iminente. A onda de greves teve seu provável início na fábrica da Fiat Chrysler (FCA), na cidade de Pomigliano, em Nápoles, que emprega 6 mil operários no ramo automotivo. Ao serem mantidos na linha de montagem para que continuassem produzindo os carros de luxo Alfa-Romeo para os super-ricos, os operários, revoltados com a situação, resolveram cruzar os braços espontaneamente na tarde da terça-feira (10/03), protestando contra as condições inseguras de trabalho. De quarta a sexta-feira, a onda de greves se multiplicou de norte a sul pela Itália, atingindo todas as grandes indústrias. “Os trabalhadores estão em greve contra o coronavírus, ou melhor, contra o governo que mantém as fábricas funcionando apesar do coronavírus”, disse o periódico Corriere della Sera.

Já o governo reacionário representado na figura do primeiro-ministro Giuseppe Conte, que inicialmente não impôs quaisquer restrições às operações das grandes indústrias, e alarmado com a situação, foi forçado a negociar via videoconferência com os sindicatos e associações patronais, que por sua vez estavam ali quase que unicamente para discutir os termos do fim das greves pelo país. Em comunicado oficial, o governo se disse “confiante de que todos estarão prontos a dar continuidade ao trabalho o mais rápido possível”. Governo, sindicatos e corporações trabalhando “construtivamente” para forçar os trabalhadores a arriscar suas vidas, voltando para as fábricas em meio à pandemia, para garantir aos super-ricos que nada do que será feito durante a pandemia ameaçará suas enormes fortunas.

Como também era de se esperar, a onda de greves foi silenciada quase por completo pelo monopólio da mídia corporativa nacional e internacional. O que de mais óbvio toda essa situação nos leva à conclusão é que as frações da alta burguesia se mostram visivelmente assustadas e preocupadas que as greves se alastrem pelos outros países do globo. O que, vale ressaltar, é um esforço em vão. A exemplo disso, tivemos as greves de trabalhadores dos correios em Londres, de motoristas de ônibus em Paris e de trabalhadores da FCA no Canadá… Isto por enquanto.

Fato é que cada vez mais as contradições de classe se acirram, e cada vez mais o caminho da luta combativa e consequente se impõe como única saída possível para toda esta ordem de exploração e opressão. Os trabalhadores praticamente não têm com quem contar, senão consigo próprios. Assistimos, cada vez mais, mobilizações espontâneas de trabalhadores e o rechaço ao oportunismo sindical e suas direções pelegas, com suas “soluções pacíficas” vende-greve, em mesas de negociação que rotineiramente só trazem prejuízos e perda de direitos.

Todo este cenário de crise só deixa cristalino o que até as pedras no caminho já sabem: a burguesia, além de ser incapaz de governar, nada produz, e sem os trabalhadores e sua preciosa força de trabalho o mundo para. Pois é chegada a hora da ruptura! O barulho das correntes que aprisionam o proletariado já pode ser ouvido nos quatro cantos, e certamente já aterroriza seus algozes, na Itália e no mundo.