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Mundo - Política - 29 de junho de 2020

Velhas estátuas, Novo Mundo

Recentemente, os círculos progressistas e democráticos do povo se engajaram na discussão sobre os eventos em que as massas rebeladas dos EUA e, em seguida, de outros países do mundo, derrubaram monumentos de figuras históricas racistas ou proprietários de escravos.

Um argumento que surgiu no seio desse debate foi o de que derrubar tais estátuas seria uma tentativa de apagar a história e – na manifestação honesta desse argumento – não aprender com os erros do passado.

No decorrer dos fatos, a mídia burguesa e o fascistóide Trump, de forma oportunista, acusaram os manifestantes de serem “grupos antifas” que “sequestraram protestos pacíficos”. 

Ironicamente a acusação se estendeu até a denúncia dos “métodos da Revolução Cultural” dos militantes. Um “especialista em comunismo”, correspondente da Epoch Times, definiu assim a suposta ‘tática maoísta’ dos militantes:

“O maoísmo é sobre a construção de um novo homem, uma nova sociedade”, disse Loudon ao Epoch Times. “Você tem que destruir todos os remanescentes da velha sociedade. Você tem que destruir os memoriais e a velha cultura para construir uma nova sociedade”.

Os ideólogos e guardiões da cultura burguesa, desde jornais à embaixadas, debatem-se e esperneiam, começando a enxergar um movimento que ergue um Novo Mundo. Contudo, agem como se esse fenômeno fosse inédito na história.

Contribuiremos com a discussão mostrando como as tradições não são um fim em si e como podem e devem ser derrubadas ao não contribuir com a elevação intelectual e espiritual dos povos.

reprodução: AP

Para que servem estátuas e monumentos? Existem principalmente por seu caráter simbólico e subjetivo. Foram erguidas e esculpidas para reverenciar alguma figura histórica de destaque e existir como lembrança – deixando perene um ensinamento histórico. 

Portanto, esses ícones existem pelo aspecto espiritual e mítico que mobiliza as massas – é comum que todos os processos revolucionários da humanidade, símbolos e personalidades fiquem gravados na consciência dos povos muito mais que um conceito científico. É difícil, porém, para os anarquistas e pequeno-burgueses pós-modernistas, por sua natureza iconoclasta, entender que tal fenômeno é orgânico.

Apagar a história ou construí-la?

O site do ativismo que representa o liberalismo ‘progressista’ aqui no Brasil, o portal Mídia Ninja, divulgou artigo, baseado em uma publicação no Twitter, onde aborda as questões sobre a derrubada de estátuas ser ‘apagar’ a história ou construí-la.

Na maior parte das vezes essas ações diretas foram feitas mais pelo seu valor simbólico do que pela utilidade prática.

De modo justo, o autor da thread observa que derrubadas de monumentos são muito comuns na história, principalmente em períodos revolucionários: ocorreram nas revoluções burguesas dos Estados Unidos (a ‘Guerra de Secessão’) e França, onde estátuas que representavam a monarquia absolutista foram transformadas em balas e munições de canhão.

Outras, que representavam o colonialismo genocida da Europa sobre a África e Ásia, como a do belga Rei Leopoldo no Congo ou a do rei português Afonso Henriques em Luanda, esta inaugurada durante o fascismo de Salazar, também foram destruídas ou retiradas por pressão popular.

No outro espectro, a iconoclastia foi usada pelas classes dominantes, pelo fascismo e pelo imperialismo, para apagar a história dos que ousaram libertar nações e povos. A de Saddam Hussein foi derrubada durante o massacre da invasão ianque no Iraque. A de Lênin, recentemente destruída por nacionalistas e nazistas ucranianos. A de Stálin foi retirada para um museu, à serviço da contrarrevolução e do capitalismo russo, atualmente representado por Putin.

Aqui no Brasil, como não pode deixar de ser em uma semi-colônia, a repressão é mais escancarada. No caso do monumento do bandeirante Borba Gato, este mito da burguesia paulistana que não é constantemente vilipendiado pelos “intelectuais” (como é Zumbi dos Palmares), está protegido por vigilância 24 horas por dia. Não é caso de dificuldade de “discussão dos processos” como atribui ingenuamente o autor do post na Mídia Ninja, mas uma evidência do grau de repressão que se vive na “democracia” dos trópicos.

As tradições e fantasmas do passado e o 18 Brumário de Luis Bonaparte

Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.” – Karl Marx

Como ensinou o grande Karl Marx nesta obra, os revolucionários franceses, guiados por Napoleão, destruíram o que foi necessário das bases feudais da sociedade antiga para instaurar as bases sociais de uma nova sociedade

Convém abrir parênteses e lembrar aos “marxistas” que estranham atos de ação direta que, segundo Marx, a sociedade burguesa não teria sido erguida não fossem “heroísmo, sacrifício, terror, guerra civil e batalhas de povos para torná-la uma realidade”

Outra diferença qualitativa das massas trabalhadoras diante das classes dominantes até aqui: o proletariado constrói diariamente sua Nova Cultura, não se utiliza em absoluto da cultura do velho mundo e a cada dia enterra mais ainda as velharias das sociedades mortas e das que ainda insistem em sobreviver, como é o caso do capitalismo. 

Não à toa Hegel disse que na medida em que é o escravo que produz e reproduz as condições de vida do senhor, este último passa a enxergar a vida sob a ótica do primeiro.

Entretanto, não será errado dizer que os trabalhadores que trarão a nova sociedade resgatarão – em uma medida bem menor que a dos senhores de guerra burgueses ou medievais – símbolos do passado: guerreiros das classes exploradas, como Spartacus, e elementos de cultura nacionais – constantemente destruídos e suprimidos pelo imperialismo.

fonte: wikicommons

“A revolução social do século XIX não pode tirar sua poesia do passado, e sim do futuro.” 

Desse modo, não se deve olhar o passado com demasiado romantismo. Os elementos históricos que serão preservados serão unicamente àqueles que não rememoram e perpetuam ideologias atrasadas e genocidas, como a do racismo. Ao contrário do que diz a ideologia burguesa, os revolucionários chineses foram corretos de destruir, tanto quanto fosse possível, as lembranças da tirania confuciana. Sublinhando, contudo, que só a base econômica e material modifica a ideologia.

Todavia, existe uma armadilha que a leitura dogmática pode causar perante as palavras do 18 Brumário: Marx criticava à sua época os movimentos de trabalhadores ‘copiarem’ os métodos (se apossando do Estado e usando de velhos mecanismos) e fantasmas das velhas sociedades em sua luta. No entanto, ele elogia o proletariado por este trazer em seu movimento constantes críticas e avaliações dos erros do passado, sem negar, contudo, um cenário onde “a própria sociedade […] conquista para si mesma um novo conteúdo”.

Depois do mestre barbudo, as massas, junto aos seus líderes, como Lênin, Stálin, Mao e tantos outros, já iniciaram a construção da nossa história que, nesse caso, serão a base cultural e simbólica da nossa ideologia científica. Uma base justa, criada pelas massas, continuando o início desse processo necessário que Marx alertava.

Conclusão

Devemos ver com bons olhos este momento de mudança e despertar popular contra o racismo, principalmente nos Estados Unidos – que é o “estômago da besta” do capitalismo mundial. Como todo levante popular na história, suas faíscas ecoam para outras partes do globo. Somado a isso, as ações contundentes que estão levando à cabo, como a derrubada de monumentos de figuras racistas.

No entanto, podem haver equívocos nessas ações, principalmente de caráter esquerdista. Não é absurdo que haja, entre os que estão a frente das ações diretas, militantes que sigam uma linha anarquista ou pós-modernista e não saibam avaliar de forma científica e objetiva quem devam ser, de fato, os alvos desses atos. Por outro lado, é bem plausível que, pela sua própria natureza espontânea, indivíduos exteriorizem seu ódio inconsciente e insatisfação contida em ações errôneas, como no caso da estátua do escritor espanhol Miguel de Cervantes.

Como toda revolta e levante das massas, ensinou Lênin, seu aspecto inicial não é totalmente consciente da questão central que causa tais mazelas – isto é, o sistema capitalista – pelo seu caráter espontâneo. É natural que tais fenômenos ocorram dessa forma. Não obstante, para que toda essa energia e esse grande momento não passe em vão, é preciso que a parcela mais avançada dos trabalhadores norte-americanos – o que se chama de vanguarda revolucionária – direcione o processo de forma consciente e organizada, munida da teoria correta.