Lee Feigon. Lee Feigon é o autor de “Mao: A Reinterpretation”

Apesar de que nos anos recentes suas conquistas tenham sido difamadas, na verdade, Mao Tsetung, o antigo líder da China, fez muito pelo seu país.

O estabelecimento de um sistema de saúde universal não foi a última de suas realizações, que seus sucessores fizeram entrar em colapso. A resultante falta de instalações médicas em muitas partes da China promoveu a disseminação da SARS, criando um problema de saúde global.

Após a morte de Mao, a mudança na política de sistema de saúde chinesa foi dramática. Quando Mao morreu em 1976, mais de 90% da população rural chinesa era elegível para seguro de saúde e plano de saúde de base na comunidade. Em 1989, apenas 11% da área rural chinesa possuía plano de saúde. Hoje em dia, mesmo moradores rurais ricos muitas vezes tem que procurar tratamento médico de xamãs e adivinhos, que oferecem pouca proteção contra doenças sérias como a síndrome respiratória aguda grave.

Alguns trabalhadores da cidade agora também têm problemas em conseguir o tratamento médico adequado, apesar do fato de que nos últimos 25 anos as instalações médicas nas grandes cidades chinesas melhoraram notavelmente. Sob Mao, trabalhadores estatais urbanos eram elegíveis para planos de saúde subsidiados. Como as indústrias foram privatizadas, muitos trabalhadores perderam esses benefícios e não podem mais gastar com acesso aos médicos da cidade sobrecarregados de trabalho que ainda atendem aos pobres.

Mas foi no campo que a SARS começou. Sob Mao, a comunidade camponesa local era responsável pelo tratamento de saúde. Os sucessores de Mao permitiram aos governos locais renunciar de suas responsabilidades financeiras e políticas pelo bem-estar de seus cidadãos. A desintegração resultante da infraestrutura médica do campo permitiu que não apenas a SARS, mas também o AIDS, a tuberculose e outras doenças se expandissem às zonas rurais.

Não foi sempre dessa forma. Durante o Grande Salto Adiante de Mao (1958-60), a maioria das localidades estabeleceu postos de saúde comunais. Trabalhadores rurais eram treinados a administrar tratamentos médicos básicos, supervisar a melhoria de medidas sanitárias, educar suas comunidades sobre técnicas de planejamento familiar e promover medicina preventiva. Esses trabalhadores, que ficaram conhecidos como médicos de pés descalços, atendiam às necessidades básicas de saúde da população local.

Como o próprio Mao, o sistema de saúde que ele estabeleceu tinha falhas. A fome causada pelo Grande Salto Adiante deixou uma população enfraquecida propensa à doenças. Os médicos de pés descalços de Mao não eram capazes de oferecer o tipo de tratamento médico sofisticado agora disponível a muitos da elite urbana chinesa e eles não podiam parar doenças causadas pela falta de nutrição. Mas os trabalhadores médicos rurais eram bom em detectar problemas como a SARS e mobilizar a população local a prevenir problemas de saúde comuns.

Se os doutores de pés descalços tivessem sido mantidos em seus lugares, eles poderiam ter constituído um grupo principal de trabalhadores médicos que poderia ter se expandido e desenvolvido com mais treinamento. Isso já estava começando a acontecer em 1975, quando eu visitei a China pela primeira vez com meus pais. Mao ainda estava vivo e a Revolução Cultural não estava acabada.

Minha mãe tinha sido uma vítima do último surto de poliomielite que varreu os EUA na metade dos anos 50. Por quase um ano, ela estava confinada em um pulmão de aço. Ela se recuperou, mas teve problemas com sua perna. Enquanto nós estávamos visitando a China onde meu pai estava fazendo negócios, minha mãe, esperando uma cura milagrosa, procurou um acupunturista, que, como se viu, alegou ter começado como médico de pés descalços. O médico olhou para ela e sacudiu a cabeça. Acupuntura, ele disse a ela, não vai te ajudar. O que você precisa fazer é se exercitar mais e perder peso. Esse foi exatamente o mesmo conselho que ela recebeu em casa dos especialistas que ela visitou.

Com a mensagem para casa, minha mãe começou a perder peso e se exercitar mais. Hoje com 88 anos, apesar da devastação da poliomielite, ela continua dirigindo e caminhando. Ela tem uma agenda social mais agitada do que a minha. O conselho que o velho doutor de pés descalços a deu foi um indicativo do tipo de cuidado básico de senso comum possível sob o sistema maoista.

Ao invés de construir sob os sucessos de Mao, os sucessores de Mao abandonaram o sistema médico chinês outrora tão elogiado. Antes da epidemia da SARS se tornar conhecida, o novo líder chinês, Hu Jintao, chamou os camponeses para retornar à dedicação de Mao Tsetung de servir o povo. O aviso de Hu veio tarde demais para previnir a epidemia da SARS, mas recentemente, Zeng Qinghong, um poderoso oficial visto por muitos como um rival para Hu, fez uma visita pública à casa ancestral de Mao, enquanto checava a prevenção da SARS e o trabalho de controle nas províncias. A questão é se os novos líderes chineses começaram a apreciar Mao tarde demais.

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