I.

A Bíblia afirma, no capítulo das Revelações, que perto do fim dos tempos, falsos profetas surgirão, com falsos caminhos para Deus.

Há certa sabedoria nessa passagem mitológica, visto que no fim dos tempos do capitalismo burocrático brasileiro, o que mais aparece ao redor dos democratas e honestos patriotas brasileiros são falsos salvadores, arautos da inteligência suprema e das soluções perfeitas, pacíficas e racionais, em plena concordância com o atual estado de coisas.

No entanto, nosso compromisso é com a Revolução de Nova Democracia ininterrupta ao Socialismo. Sendo preciso assim, de nossa parte, desmascarar esses falsos salvadores e demonstrar como “solução” e “manutenção” são conceitos diametralmente opostos no atual momento político brasileiro. Noutros termos: a solução é a ruptura, i.e., a via revolucionária.

Dito isso, citaremos aqui a plataforma programática do PDT, personificada na figura de Ciro Gomes que, além de não sair da lógica e do palavrório dos tempos de eleição, ainda mantém a mesma plataforma política. A citar: aumento de impostos sobre heranças; negociação de dívidas da população civil; e um planejamento que tentará quebrar o cartel dos grandes bancos.

Naturalmente, estes não são todos os pontos de suas promessas, mas, para este escrito, limitaremos a análise apenas neles, demonstrando que, embora bonitos no papel, o papel aceita tudo, diferentemente da realidade, que clama por mudanças radicais.

II.

O que significa o aumento de impostos sobre heranças? (https://veja.abril.com.br/politica/eleicoes-2018-o-que-pensa-ciro-gomes-pre-candidato-do-pdt/)
Na prática, um canto de sereia oportunista aos ouvidos progressistas.

É verdade que aumentar a tributação sobre a riqueza acumulada, imóvel, com o fim de suprimir a mesma é uma pauta que encaminha à abolição da propriedade privada dos meios de produção, todavia (e esta pergunta guiará nosso texto até o fim), isto basta?

A proposta de Ciro Gomes/PDT aumentaria a tributação sobre heranças dos atuais e absurdos 8% para 24%, coisa que representaria um avanço… Em direção ao número de dinheiro que o Estado dispõe.

O discurso “anti-liberalismo” que essa tributação levanta, ignora que a questão do quanto tributar não mudará nada o status quo de quem detém os meios de produção e de seus herdeiros, pois, mais importante que um dinheiro guardado, é a possibilidade de fazer mais dinheiro. Assim, países que são baluartes do capitalismo moderno, como EUA e Japão, sustentam tributação de 25 a 40% (https://www.bbc.com/portuguese/internacional-44020436) sem, contudo, alterar a enorme desigualdade social ali existente e a perpetuação de herdeiros nos topos das grandes corporações.

Atacar as heranças é um progresso enorme num país atrasado como o Brasil, porém, se estamos falando de matar a sede, que bebamos um copo de água pelo menos, não poucas gotas!

Para contrapor de modo sólido, vejamos o que dizia Marx a respeito da política comunista sobre heranças:

“O direito à herança será abolido.”
Fonte: Demandas do Partido Comunista na Alemanha

Este é o ponto sobre heranças: não há que negociar a respeito delas, mas bani-las. Este, de fato, representará um golpe significativo na propriedade privada dos meios de produção, além da tomada destes pela força.

III.

Passemos agora ao grande eixo gravitacional da campanha pedetista: limpar nomes!

A ideia gira em torno de: “(…) vou colocar o prestígio e a força do governo para fazer uma grande negociação de atacado com o crediarista.”
Fonte: Globo

Em termos simples: fazer do Estado um intermediário entre devedores e credores, implorando aos segundos que “peguem leve”, como se a burocracia estatal fosse um enorme e bem relacionado despachante.

O absurdo disso tudo reside, novamente, em não cortar o mal pela raiz. As dívidas imensas do proletariado são fomentadas e estimuladas por dois fatores: a) a facilidade ao crédito com juros altos, que é atraente por conta dos b) baixos salários, que impedem um trabalhador de comprar o mínimo para seu consumo e sobrevivência de uma só vez, sem recorrer ao empréstimo, crédito, carnê, etc.

Sendo isto autoevidente, por que isso soa tão bem aos ouvidos progressistas? Porque os mesmos progressistas que vêm em Ciro Gomes/PDT uma alternativa de melhora, estão impregnados ainda da ideologia pequeno-burguesa do medo da revolução, medo das massas populares. Deste modo, qualquer filantropia parece linda e bastar em si mesma, ainda que, no longo prazo, por não abolir aquilo que a originou, simplesmente volte a acontecer.

Em outras palavras: sem aumentar drasticamente os salários e forçar a queda de juros com a mão forte de um único banco estatal, nosso Estado despachante só resolverá os problemas da inadimplência atual até a próxima crise, onde a alta dos preços e o salário de fome dos brasileiros obrigará, de novo, o proletariado a empréstimos, entrada em crediários, etc.

Eis aqui, novamente, uma proposta sólida:

Um banco estatal, cujas emissões são o meio legal de pagamento, deverá substituir todos os bancos privados.

Essa medida tornará possível a regulação do sistema de crédito seguindo o interesse do povo como um todo, e assim irá minar a dominação dos grandes magnatas financeiros.”
Fonte: Demandas do Partido Comunista na Alemanha

A filantropia temporária, enfim, não basta contra a dominação dos capitalistas e suas artimanhas na manipulação do papel-moeda; é preciso ter a audácia e a autoridade revolucionária de impor o fim do poder econômico burguês.

IV.

Chegamos à proposta de diminuir a taxa de juros e fomentar a destruição dos cartéis bancários no Brasil com, principalmente, a redução da taxa de juros nos bancos estatais, estimulando (segundo a lei da concorrência capitalista) a baixa do lado privado também.

Retomando o item anterior, veremos que essa solução, também, é falsa, lenta e absolutamente inútil no longo prazo.

Entretanto, por razões ligeiramente diferentes.

Ora, o capitalismo não considera seu monopolismo uma aberração. Este foi um processo histórico, surgido do seio da própria competição capitalista que, suplantando e absorvendo a concorrência, tornava este ou aquele capitalista, este ou aquele grupo de capitalistas, um fator central e dominante num determinado ramo do mercado.

Em outras palavras: a tendência monopolista, cartelizadora, concentradora de grandes somas de capital, etc., é inerente ao capitalismo.

O que Ciro Gomes propõe, por consequência, é mais um paliativo temporário, até o próximo surgimento de cartéis e monopólios bancários; isto é, assumindo que tal coisa sequer seria praticável, pois a influência dos banqueiros é absolutamente palpável na esfera pública, com constante passagem de importantes cabeças dos grandes bancos pela alta hierarquia estatal.

A solução real já está dita anteriormente: a dissolução destes e a formação dum único banco estatal. Só isto acertará em cheio os parasitas banqueiros.

V.

Dissemos a princípio que o que guiou nosso raciocínio é a questão: isto basta?

Se o(a) leitor(a) for um honesto democrata e patriota, talvez, fale que sim, uma vez que os contrapontos aqui ditos em relação aos nossos Falsos Salvadores Pedetistas são “radicais demais” e “inviáveis de imediato”, por consequência, esse radicalismo aqui exposto deveria esperar por melhores condições de ação e ir dialogando com as insuficientes, mas necessárias, propostas de Ciro Gomes/PDT.

Nós respondemos que não, que o povo brasileiro já aguardou demais.

Entrar no ostracismo e no imobilismo do reformismo e das falsas (ou temporárias) soluções é tudo que as classes dominantes precisam para reorganizar forças durante suas crises e reestruturar o próprio poder.

Dialogar e defender melhorias é necessário, no entanto, somente ao ter em vista a superação real do atual estado de coisas, que só acontecerá pela via revolucionária.

Considerando, além do exposto, que a via parlamentar já provou ser caduca e inútil no terceiro mundo, cabe aos patriotas honestos buscarem mesmo as reformas pela via da luta, da ação de massas, do trabalho nas ruas.

Mesmo um radical de esquerda envolvido no atual parlamento, cheio de boas intenções, faria muito pouco. Ou cairia em soluções inúteis; ou não faria nada; ou seria deposto.

No mais, a experiência histórica provou que o povo organizado pode derrotar o Estado, as classes dominantes e seus cães de guarda.
Se é possível fazer, façamos!

O que não podemos é idealizar bons momentos e reformas impraticáveis ou inúteis de braços cruzados, porque, se a revolução e a superação definitiva de nosso atraso só virá no futuro, por que raios estaríamos interessados em esticar ainda mais esse futuro advogando por paliativos no momento?

Por consequência: lutemos por reformas e melhorias desde as ruas, usando esta luta das massas, para as massas, como base prática para a consolidação da organização das massas populares para a Revolução.

Sem uma grama de fé no parlamento, falsos salvadores e no jogo sujo das classes dominantes; com toneladas de fé em quem faz a história:

o povo.

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