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Crônica - 17 de novembro de 2021

Entre os Espelhos e Telas, me Basto?

Nessas andanças virtuais improdutivas, da vida moderna e decadente do capitalismo. Estava lá, eu, na rede social de fotos e me deparei com uma postagem de uma pessoa em que a legenda era algo como:

“só eles pra deixar minha autoestima como a da rainha que eu sou”

Num primeiro momento, pra mim, é bastante cômica a situação de me deparar com esse tipo de “pensamento” (?), ou como dizem os jovens, é bem cringe.

Mas a partir desse sentimento, fui levado à constatação que isso é bem comum pra um nicho de gente, e quanto nicho leia-se classe. Mas ao passo, pelo que observo, vejo que proletários vem reproduzindo essas boçalidades, e aí cheguei a pergunta que me motivou a vir aqui até vocês:

O que é? E da onde vem isso?

Levando com um pouco mais de seriedade, fico pensativo em como nessa fase especifica do imperialismo que estamos, com essa movimentação monopolista do capital e a extrema individualização do ser-humano gera o que – ao menos nesse primeiro momento- vou chamar de “autoestima liberal”.

Em 2019, escrevi um artigo aqui na AMIP intitulado “A Individualização do ser humano como mecanismo de defesa do capitalismo”, e lá discorro um pouco sobre como essa proposição ideológica dominante funciona para se proteger 1º como tentativa de dissuadir a organização das massas, 2º como reflexo direto da ‘distribuição’ individual do excedente da produção e 3º produzindo um adoecimento psicológico em massa.

Já em 2020, escrevi um artigo intitulado “Sob meus olhos, as suas coisas”, onde discorro sobre o sentimento da inveja e como acredito que ele seja um produto da nossa sociedade capitalista.

Dito isso, esses dois artigos podem nos ajudar a começar nossa reflexão.

Fui em busca de uma definição de autoestima, não de dicionário, mas de estudiosos da área, e que creio que seja a que mais se alinhe com nossas concepções seja a definição do Behaviorismo Radical.

“autoestima: um sentimento produto de contingências (possibilidade de acontecer ou não) de reforçamento positivo de origem social.”

Com essa definição poderíamos até parar a nossa reflexão e dizer o óbvio -para todo marxista- é algo de origem material. Mas isso não responde tudo que precisamos, isso responde a nossa primeira questão que seria o “o que é?”.

Seria desonesto datar o tempo de quando esse “excesso” de autoestima começou, por não ter feito uma investigação histórica séria para afirmar isso. Mas o que posso dizer com segurança, após investigação, é que a vertente de “livros de autoajuda” explodiu nos últimos vinte anos, a abundância de “mentorias/coachings” tentando resgatar um super estoicismo também cresceu vertiginosamente e também a volta da popularidade dos feminismos (principalmente o liberal) em abundância nos jovens progressistas ‘médios’.

Esse comportamento tem sido muito mais constante na pequena-burguesia, porém a minha preocupação é que está atingindo cada vez mais o proletariado ainda não esclarecido.

Penso que já respondemos a segunda pergunta que seria “da onde vem isso?”. Acho que conseguimos precisar que essa “autoestima liberal” é um produto da nossa sociedade moribunda.

Mas o que me deixa feliz, se você chegou comigo até aqui, é que creio que surgiu a terceira pergunta que seria “porque isso é motivado pela ideologia dominante?”, e acredito que a resposta está nos males que essa mesma sociedade gerou.

Lembra dos pontos levantados, quando indiquei dois textos acima? Penso que essa “autoestima liberal” seja uma tentativa (frustrada) da ideologia dominante em tentar remediar os males causados pela individualização do ser e suas doenças psicológicas provenientes disso e também sistematizar um liberalismo disfarçado sob o mantra “se você aceitar as coisas como elas são, se resignar, você viverá bem”.

As “junk foods” são mais baratas? As pessoas estão pegando restos de comida no lixo? Seja Body Positive e se aceite. Os negros nessa sociedade sofrem dum racismo estrutural, são agredidos, marginalizados? Aceite que negros são lindos vai ficar tudo bem.

Numa sociedade onde somos todos concorrentes, e inimigos velados de si mesmos, a falta da coletividade e de todas as benesses que ela poderia nos dar, inclusive a verdadeira individualidade, vamos adoecendo em prol do lucro de poucos, adoecendo e enquanto isso vão dizendo que nós temos que curar a nós mesmos sozinhos, sem ninguém.

E de certa forma estão certos, nós iremos nos curar e já encontramos o vírus.