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Agitação - Brasil - Política - 19 de novembro de 2021

Lula e a Fé Cega do PCO

Se usássemos a mitologia para ilustrar como opera o velho Estado e seu exercício de poder político, teríamos na Hidra de Lerna a melhor representação. 

Habitante do pântano, quando perdia uma de suas cabeças, ganhava mais duas; tão venenosa era, que seu hálito bastava para matar os inimigos. 

Ainda assim, porém, essa monstruosidade não intimida a esquerda oportunista e reformista: é louvada. 

Uma de suas cabeças em particular, já cortada e regenerada, Luiz Inácio, é o ídolo inconteste dos trotskistas do PCO. Todavia, reconhecemos que o moderno Rabótcheie Dielo está anos-luz adiante dos outros oportunistas, já que não dissimulam as próprias visões e expectativas. Por essa honestidade e clareza serão nosso ponto de partida crítico.

Com efeito, toda a esquerda reformista vê na eleição de Luiz Inácio, em 2022, a salvação derradeira das massas populares brasileiras contra o fascismo, Bolsonaro, o imperialismo e mil outras coisas. 

Diante disso tudo, é necessário o debate sobre esse Bezerro de Ouro que, no fundo, é só mais uma cabeça da Hidra de Lerna. 

Expondo seu corpo sórdido, exporemos sua natureza ligada à besta venenosa que é o Estado reacionário.

Para apagar o sol fictício dos falsos ídolos, demonstraremos, a seguir: a insustentabilidade dessa fé em Lula; as razões gerais da caducidade da tática de participação eleitoral em nosso país; e, por fim, a alternativa real para os problemas das massas populares. 

A realização fantástica do oportunismo e da metafísica não pode ser diferente da fé em um santo. Só que a idolatria não passa de ilusão. Para adentrar no reino da ação consciente e consequente é preciso o compromisso de abandonar uma realidade que necessite de ilusões — é preciso arrancar as flores imaginárias de nossas correntes. 

II 

No número 6561 do “Diário da Causa Operária”, a matéria intitulada “Para um governo dos trabalhadores, um vice dos trabalhadores”¹, leva o seguinte subtítulo: 

“A direita faz campanha por um vice que desmoralize a candidatura de Lula e o movimento de luta necessário para a sua vitória e de todo o povo contra o regime golpista”

Estranho notar que para os nossos zelotes lulistas, ao que tudo indica, essa direita é onipresente e atemporal em sua tentativa de “desmoralizar” a candidatura de Luiz Inácio, uma vez que o primeiro vice do ex-operário foi ninguém menos que o empresário José Alencar, do Partido Liberal. 

Na época Lula “lutava” contra um golpe? Ou simplesmente fez um pacto com o diabo pela “governabilidade”? A Carta aos Banqueiros, ou “Ao Povo Brasileiro”, do mesmo petista e redigida no mesmo período, pode dar boas pistas. 

Ignoremos um pouco da sacralização das “puras” intenções de Lula.

Voltemos ao texto do DCO. O primeiro parágrafo conta que: 

“Em meio a uma notória campanha da imprensa golpista e de setores da esquerda – notadamente o pseudo-esquerdista PSB – para impor Geraldo Alckmin (com minúsculos 4,7% de votos válidos) como candidato a vice-presidente na sua chapa, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já aparece com a preferência de mais da metade do eleitorado, publicou nas suas redes sociais:

1 – Já tenho 22 vices… Enquanto ainda nem decidi se sou candidato. A escolha de um vice tem que ser levada muito a sério. Tem que ser alguém que some, e não que tenha divergência.”

Aparentemente, o Rabótcheie Dielo crê que a “esquerda” e a “imprensa golpista” estão numa campanha (notória!) pela imposição de Alckmin na chapa de Lula. 

Curioso! Teria essa imprensa cogitado os outros 22 nomes que Luiz Inácio cita? Ou será que simplesmente estamos falando de um caudilho avaliando com calma suas opções de aliança? Um devoto não tem a resposta adequada para essas questões. 

Em seguida, temos: 

“A declaração é uma clara reação de Lula à pressão que vem sofrendo dos mais distintos setores em favor de um vice golpista que atenda aos interesses dos que apresentam seus candidatos como se fossem os candidatos de Lula. Destaque-se que nenhum dos vices apontados na imprensa burguesa foram publicamente cogitados por Lula que, no máximo, reagiu com uma certa delicadeza, afirmando inúmeras vezes que nenhum dos nomes ‘convidados’ tinha sido cogitado por ele, uma vez que – oficialmente – não teria sido indicado pelo partido como candidato, o que é dado como certo.”

O enaltecimento continua. Luiz Inácio é “vítima” das imposições e desmandos da “imprensa golpista”, oficialmente não falou nada, nada foi apresentado ao PT, etc. 

Com certeza um sujeito que apertou as mãos de Maluf, José Alencar, Severino Cavalcanti, etc. somente cogitaria direitistas por perto sob pressão — ou nem cogitaria! —, sem dúvidas que todas essas hipóteses são meras conjecturas de uma “mídia golpista”. 

Só que não. 

É tempo já do PCO e das outras siglas oportunistas reconhecerem que Luiz Inácio, Dilma, Haddad, Guilherme Boulos, ou quem quer que seja, dentro do velho Estado, não passará de um gestor temporário da comissão de negócios comuns às classes dominantes brasileiras.

Esse reconhecimento não deve ser somente em palavras. 

Se for conveniente para a grande burguesia, o sindicalista Lula terá sim como vice um burguês como Alencar. Se for conveniente para os latifundiários, Dilma terá sim um banqueiro no ministério da fazenda. 

No final, por mais que possa doer no íntimo de nossos zelotes, esses ídolos nada decidem. 

Isto quer dizer que pouco importa a ladainha infernal dos “vices” de Lula, a opinião do pernambucano sobre eles, etc. Importa que, ao fim e ao cabo, o poder decisivo está na mão dos latifundiários, banqueiros e oligopolistas — portanto, tais devem ser os alvos de nossa preocupação. Tal é a diretriz prática para o reconhecimento do Estado como comissão de negócios das classes dominantes.

Sem dar esse passo decisivo no reconhecimento da essência do Estado reacionário, nada pode ser feito, e todo editorial e texto magnífico não passará de uma apologia mais ou menos envergonhada a um fantoche. 

Essa defesa do inócuo, aliás, é a essência desse texto do DCO, posto que adiante temos mais elucubrações em defesa de Luiz Inácio: 

“Até Lula de vice já propuseram. O uso e abuso em torno da composição da chapa da maior liderança popular e política do País é tamanho que não faltou nem mesmo o anúncio de que “setores” gostariam de ver Lula como vice em uma possível chapa encabeçada por um suposto candidato que unificasse a “oposição” (que não se opõe) a Bolsonaro mas o ajuda a aprovar todos os seus ataques contra os trabalhadores. Quem sabe João Doria (PSDB) ou Ciro Gomes (PDT), repetindo a fórmula desastrosa adotada na Argentina, onde – para atender à vontade da direita – a esquerda burguesa, o Partido Peronista indicou como candidato presidencial um elemento direitista – colocando a ex-presidente Cristina Kirchner, na vice-presidência -, o qual após vencer as eleições está realizando um governo com enormes concessões à direita, com ataques aos trabalhadores, e acaba de ser derrotado nas eleições parlamentares e regionais do último domingo. A pressão por um vice golpista para Lula é parte integrante da política de desmoralização da sua própria candidatura. O caso da suposta candidatura de Alckmin é exemplar. Trata-se de um político amplamente repudiado pelos trabalhadores paulistas, e sem apoio real fora de SP, como se viu nas últimas eleições, e que sofre além do seu próprio desgaste o processo de falência dos partidos políticos da direita, amplamente repudiados pela população.”

Em seguida, voltam para a tese da “pressão pelo vice golpista e seus problemas”

“A campanha pela presença de Alckmin na chapa de Lula é uma parte de uma ofensiva que visa a desmoralização da própria candidatura de Lula, pois se vingasse ofereceria munição para setores da extrema-direita ganharem terreno junto à população [!], no sentido de apresentar a chapa de Lula como cúmplice da política de destruição do País e ataques aos trabalhadores encabeçada pelos tucanos ao longo das últimas décadas. [sic!]”

O Rabótcheie Dielo, talvez, não tenha ideia, mas “setores da extrema-direita” já têm bastante terreno junto à população, inclusive — seja dito de passagem — com capacidade para eleger um Presidente da República. 

Isso caiu do céu? 

Ou será que a culpa foi do “vice golpista” de outrora, isto é, Temer? 

Na realidade, o fascismo não é mais que a organização do ajuste de contas terroristas com a classe operária e a parte revolucionária dos camponeses e dos intelectuais. Ele só pode nascer e ser fomentado no seio da debilidade progressista, cuja antessala é a política de colaboração de classes e o divisionismo². 

Dito de outra forma, foi precisamente a política petista que chocou o ovo do fascismo em nosso país

Além do mais, não foi necessária uma “desmoralização” por parte dos direitistas que Lula e Dilma mantiveram por perto, somente a má gestão do ponto de vista da grande burguesia e do latifúndio que, então, trocaram as cadeiras de sua comissão de negócios. 

Mais honesto, mesmo para um partidário do cretinismo parlamentar, seria reconhecer esses fatores e exigir de Luiz Inácio e do PT a adesão à uma linha mais “radicalizada”. O PCO, no entanto, não ousa dar esse grande passo, apenas murmura que: 

“Figuras como Alckmin e outros candidatos prediletos da direita a vice de Lula trabalhariam, incessantemente, para deixar o governo completamente submisso ao capital financeiro internacional [mais do Lula e Dilma deixaram?]. Atuariam para minar totalmente a confiança popular no próprio Lula, desmoralizando-o ante seu eleitorado, que está ansioso por um governo não em favor dos capitalistas que apoiaram o golpe, mas sim em benefício dos trabalhadores.O povo brasileiro quer votar em Lula. Mas quer votar em Lula para que quem governe seja Lula, seja o PT, seja a esquerda que luta nos sindicatos e demais movimentos pelas reivindicações populares.”

Quer dizer, limitam suas reivindicações à “chapa puro sangue”. 

Lembremos o quanto a política econômica de Lula e Dilma fortaleceram o capital financeiro³. Lembremos, também, o quanto as associações escusas do petismo em troca da “governabilidade” fez Luiz Inácio negociar com toda sorte de delinquentes e parasitas (alguns já aqui citados). 

Tudo isso que o PCO vê nas “intenções do vice golpista” foram já os atos do PT.

Mas o Partido da Causa Operária não pode dar um passo além. Está cego pela fé, intoxicado pelo hálito da Hidra e, consequentemente, incapaz de reconhecer seu corpo. Logo, vê apenas cabeças e rostos, nunca a totalidade da besta. 

É, por tudo isso, incapaz de dar bom combate.

Cabe a nós, na próxima seção, o exame da exata natureza dessa monstruosidade, visando esclarecer todo democrata e progressista honesto da essência do Estado reacionário e os caminhos concretos para sua derrubada. 

1 – https://www.causaoperaria.org.br/rede/dco/politica/esquerda/para-um-governo-dos-trabalhadores-um-vice-dos-trabalhadores/

2 – https://www.marxists.org/portugues/dimitrov/1935/fascismo/01.htm

3 – https://veja.abril.com.br/economia/bancos-lucraram-8-vezes-mais-no-governo-de-lula-do-que-no-de-fhc/